Partido da ciência?



Pesquisadores brasileiros, assustados com os cortes suicidas no financiamento público para a ciência, analisam a possibilidade de criar um partido político para fazer a representação e a defesa dos cientistas nas instâncias em que se decide a divisão do butim -- desculpe -- da verba pública. Em princípio, não há nada de essencialmente ruim com a ideia. Se pastores evangélicos têm seus próprios partidos, por que não cientistas? Há até alguma base -- científica -- para a ideia.

Lá nos idos de 2010, fiz uma entrevista com o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007, Roger Myerson, que na época fazia um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só depois, dos candidatos, seguindo a ordem de escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do eleito: seu voto pode acabar pondo no Parlamento alguém em quem você jamais votaria. Segundo, porque induz o candidato a buscar "clientelas", ou rebanhos de votantes cativos. É esse sistema de "clientela" que garante a formação de coisas como a bancada evangélica, e que sustenta a carreira política de figuras como Jair Bolsonaro e Jean Wyllys.

(Para quem estiver curioso, a proposta de reforma do voto proporcional brasileiro feita por Myerson, para torná-lo mais justo e menos dependente de relações clientelistas,  aparece neste paper)

O "partido da ciência", então, seria apenas uma forma de jogar o jogo: se funciona para os pentecostais e os ruralistas,  por que não para os cientistas? Mas talvez fundar um partido seja um passo desnecessário: por que não cevar, dentro dos partidos já existentes, candidatos comprometidos com a "clientela" científica?

De acordo com dados da USP, Unicamp, Unesp, UFScar, Unifesp e UFABC, existem atualmente cerca de 15,3 mil professores ativos no ensino superior público (estadual e federal) no Estado de São Paulo. Isso é mais ou menos metade do número mínimo de votos necessário para eleger um deputado estadual ou federal -- os eleitos menos votados de 2014 obtiveram entre 22 mil e 26 mil votos -- mas um esforço de campanha certamente ajudaria a ampliar esses números.

Entrar no jogo do clientelismo político tem um preço ético, claro. O mais óbvio é o que vem do velho clichê "não existe almoço grátis": para conseguir leis e verbas para seus clientes o deputado tem de distribuir agrados. Que tal trocar a recriação do MCTI por um voto a favor da reforma da Previdência? Ou aí já é caro demais?

Um dado importante a se levar em conta é o de que a maioria das clientelas de políticos tem uma espécie de visão de túnel: o cara pode roubar o quanto quiser e mandar derrubar meia Amazônia, desde que, digamos, vote sempre a favor do ensino religioso e contra o aborto. Não sei se cientistas conseguiriam (ou gostariam) de usar antolhos assim.

Mas, então, qual a alternativa? Aqui, creio que a lição da fosfoetanolamina é importante: o movimento pela aprovação da malfadada cápsula cortou todo o espectro político, irmanando Bolsonaro, Wyllys e até Geraldo Alckmin. E jamais houve um "partido da fosfo". O que houve foi comunicação. As pessoas se convenceram (falsamente, mas isso é outra história) de que aquilo era crucial, e os políticos seguiram na onda.

Se os cientistas brasileiros convenceram uma parcela significativa da população da urgência de seu trabalho, o apelo ao clientelismo torna-se desnecessário. O que é uma "parcela significativa"? Existe alguma evidência de que a mobilização sustentada de 3,5% da população é suficiente para produzir transformação política. No Brasil, isso seria algo em torno de 7 milhões de pessoas. No Estado de São Paulo, 1,6 milhão. E nem seria preciso, de fato, convencer tanta gente: muitas campanhas obtêm sucesso com muito menos pessoas envolvidas. Antes de fazer o partido da ciência, talvez fosse melhor trabalhar no canal da ciência.

A imagem que abre a postagem é do Conselho de Ciência de Krypton, o único planeta conhecido governado por cientistas. E todo mundo viu no que isso deu... Sei, a brincadeira é infame, mas foi mais forte do que eu.

Comentários

  1. Salve, Orsi,

    Fiz um adendo na minha postagem para analisar seus pontos.
    http://neveraskedquestions.blogspot.com/2017/07/partido-da-ciencia-e-uma-boa.html
    ---

    []s,

    Roberto Takata

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