Charlatão que prometia curar câncer é preso



Nos Estados Unidos. A mídia norte-americana informa que Robert O. Young, autor de uma popular série de livros pseudocientíficos sobre saúde e dieta intitulada pH Miracle, vai passar pelo menos cinco meses atrás das grades depois de confessar oferecer -- sem ter nenhuma credencial médica -- tratamentos para câncer. De acordo com o jornal The San Diego Union-Tribune, "ele havia sido condenado, ano passado, em duas acusações de praticar a medicina sem licença, e se declarou culpado, no início deste ano, por mais dois crimes".

O relato do Union-Tribune prossegue: "Young, de 65 anos, não se manifestou durante a audiência judicial, que marcou o fim de um processo criminal de três anos que pôs em evidência suas teorias controversas e os tratamentos caros que oferecia a pacientes gravemente doentes ou moribundos, que em alguns casos recebiam fluidos intravenosos misturados a bicarbonato de sódio, por US$ 500 a dose".

Um caso especialmente notório envolvendo Young foi o da militar britânica Naima Houder-Mohammed, que após passar por um curso de tratamento convencional sofreu uma violenta recidiva de câncer de mama. Tão violenta, de fato, que foi desenganada pelos médicos e recebeu orientação de buscar cuidados paliativos. Desesperada, Houder-Mohammed se submeteu ao tratamento de Young, viajando para os Estados Unidos e internando-se em seu "Rancho Milagroso", onde a diária sai por US$ 3.000. Os parentes da militar rasparam as economias e realizaram eventos para levantar fundos. Após três meses de "tratamento milagroso", ela piorou tanto que foi mandada de volta para o Reino Unido, onde faleceu.

Como escreve a médica Harriet Hall na revista Skeptic, "ela iria morrer de qualquer jeito, mas Young deu-lhe uma falsa esperança e cobrou dela e de sua família US$ 77.000 por tratamentos baseados em pseudociência que não tinham como funcionar. Ele insistiu que ela transferisse o dinheiro antes de chegar ao Rancho".

A pseudociência específica de Young é a chamada "Teoria Ácido-Base da Doença", a ideia de que doenças em geral são causadas por desequilíbrio no pH do corpo. A sigla "pH" significa potencial de hidrogênio, um índice que pode ser visto como uma medida da acidez de um meio. O pH varia de 0 a 14, sendo 0 o máximo de acidez e 14, o máximo de alcalinidade*.

A ideia de que o corpo tem um pH ideal é meio idiota, já que a acidez varia de um órgão para o outro. O ácido do estômago tem pH que varia de 1 a 3, mais ou menos, e o da pele gira em torno de 5. O pH do sangue é crucial: o corpo, principalmente os pulmões e os rins, trabalha duro para mantê-lo sempre um pouco acima de 7, entre 7,34 e 7,45. Já o da urina varia bastante, entre 4,6 e 8, já que os rins usam a urina para descarregar eventuais excessos de ácido ou base.

Pessoas interessadas em cobrar por dietas baseadas em salada e água mineral mais do que essas coisas valem se agarraram a esses dois fatos -- a importância de se manter o pH do sangue dentro de uma certa faixa e a variabilidade do pH da urina -- para inventar a balela de que é possível controlar o pH sanguíneo com base na alimentação. Não é. Como escrevi alguns anos atrás para o site da revista Galileu:

É verdade que uma dieta enriquecida de gorduras e carboidratos gera dióxido de carbono, que tem um efeito acidificante. Mas o corpo humano conta com poderosos mecanismos regulatórios, envolvendo principalmente a respiração e a função renal, para impedir que eventuais desequilíbrios afetem o pH do sangue, que é mantido, rigidamente, num nível um pouco alcalino, por volta de 7,4. Qualquer grande variação representa um problema grave de saúde.
O envenenamento por metanol deixa o sangue ácido, bem como uma condição vinculada à diabete chamada cetoacidose, mas tanto a cetoacidose quando o envenenamento são situações agudas e potencialmente letais, com tratamento hospitalar, não “desequilíbrios” crônicos que se corrigem com um copo de água milagrosa ou um antiácido.
 Como escreve o médico Gabe Mirkin no site QuackWarch (grifos no original), "certos alimentos podem deixar resíduos, chamados 'cinzas', capazes de tornar sua urina ácida ou alcalina, mas a urina é o único fluido corporal cuja acidez pode ser afetada por alimentos ou suplementos alimentares. Alimentos de cinza alcalina incluem frutas frescas e verduras cruas. Alimentos de cinza ácida incluem todos os produtos de origem animal, grãos integrais, feijões e outras sementes. Esses alimentos podem alterar a acidez de sua urina, mas isso é irrelevante, já que sua urina fica contida na bexiga e não afeta o pH de nenhuma outra parte do corpo".

Num comentário pessoal, eu diria que o fato de os alimentos de origem animal serem "ácidos" e os vegetais frescos, "alcalinos", de certa forma conformando a divisão do pH às linhas gerais que separam o Bem do Mal no imaginário de fãs de certos tipos de dieta, torna toda a bobagem bem mais palatável (trocadilho intencional) para diversos grupos da população.

Mas, voltando a Robert O. Young: seus livros pH Miracle e seu tratamento para câncer são extensões lógicas do raciocínio ácido-Mau, alcalino-Bom. As injeções intravenosas de bicarbonato de sódio que aplicava a seus pacientes-vítimas eram meios crus de tentar elevar o pH do sangue. Ele também propunha algumas maluquices mais idiossincráticas, por exemplo a de que a acidez transforma células sanguíneas em bactérias. Para ele, todos os micro-organismos patogênicos brotam da acidificação de tecidos humanos, animais ou vegetais.

Agora Young está preso, e há um charlatão megalomaníaco a menos à solta por aí, convencendo gente desesperada, e parentes amorosos, a jogar dinheiro fora em terapias que não têm como funcionar. Isto é, nos Estados Unidos.

*Uma versão anterior desta postagem dizia que 7 era o máximo da alcalinidade, obviamente uma bobagem. Problema de escrever correndo antes de sair de casa...

Comentários

  1. Impressionante como tem gente que gosta de brincar com as pessoas. É uma pena que haja pessoas de mau coração.

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