Design Inteligente é propaganda, não ciência





Bom, a esta altura acho que todo mundo já viu ou ouviu falar da notícia, publicada na Folha de S. Paulo, de que a Universidade Presbiteriana Mackenzie formou uma parceria com Discovery Institute dos Estados Unidos, famoso (ou infame) por desenvolver propaganda religiosa disfarçada de ciência, a fim de trabalhar na promoção da "teoria" do Design Inteligente. A parceria tem um site, que pode ser acessado aqui. O texto de abertura -- "(...) promove estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza (...)" -- sugere que a coisa toda trata de ciência, mas isso é mera cortina de fumaça: trata-se, estritamente, de uma questão de política e relações públicas.

Porque o Discovery Institute é uma instituição de relações públicas. Se não acredita em mim, leia esta declaração de missão no site dos caras. Cito: "A missão do Centro para Ciência e Cultura do Discovery Institute é promover o entendimento de que seres humanos e a natureza são resultado de um projeto inteligente, e não de um processo cego e sem direção". Ou seja, eles têm uma mensagem pré-estabelecida e estão aí para vendê-la.

Agora, compare-se isso com a declaração da parceria Discovery-Mackenzie: "busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza". Ora bolas: ou bem você quer "promover o entendimento" de que alguma coisa é verdade, ou bem você quer "buscar evidências" de que alguma coisa é verdade. "Buscar evidências" para "promover o entendimento" não é prática científica, mas publicitária: se você quer convencer as pessoas de que o produto do seu cliente é o melhor, você não faz um levantamento científico, você corre atrás de depoimentos positivos -- ou paga atores para dá-los.

Não vou cansar o leitor deste blog com uma repetição, pela enésima vez, dos argumentos sobre evolução, criação e Design Inteligente -- já escrevi sobre o assunto, por exemplo, aqui, aquiaqui e, mais recentemente, aqui. Esta última postagem cita a "estratégia da cunha", cuja concepção está umbilicalmente ligada à própria gênese do Discovery Institute.

A história da "cunha" está descrita no livro Creationism's Trojan Horse, que demonstra que a chamada "pesquisa" sobre Design Inteligente tem tanta validade quanto as "pesquisas" que aparecem em propagandas de pasta de dente ou as "enquetes" dos programas de propaganda política: não são esforços sinceros de busca da verdade, mas roteiros publicitários que chegam a conclusões predeterminadas. O documento  em que a estratégia da cunha é desenvolvida pode ser lido online.

Hoje em dia, a declaração geral de propósito do Institute é, até certo ponto, circunspecta -- diz que a instituição "abriga uma comunidade interdisciplinar de estudiosos e promotores de políticas públicas dedicados a revigorar princípios e instituições tradicionais do Ocidente e da visão de mundo de onde surgiram". Mas versões anteriores do site, citadas em Trojan Horse, eram mais explícitas. Por exemplo: "a ideia de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus é uma das bases em que a Civilização Ocidental foi construída..."

A meta declarada dos fundadores do Discovery Institute é substituir o que eles acreditam ser a visão de mundo hegemônica hoje no Ocidente -- ateia, materialista, marxista, freudiana, darwinista, caótica -- por uma visão cristã, encantada, divina, plena de propósito. O Design Inteligente é apenas uma ferramenta de propaganda para isso. Esta constatação não só foi aceita pelo consenso da comunidade científica, como também por todas as instâncias do Judiciário norte-americano, que identificaram o Design Inteligente com propaganda religiosa e, por isso, proibiram seu ensino em escolas públicas.

Derrotada em seu berço, a "cunha" tenta migrar para o Brasil. É uma pena que tenha sido abraçada por uma instituição como o Mackenzie. A Fase I da estratégia da cunha preconiza a obtenção de credibilidade acadêmica; ao que tudo indica, tendo fracassado, em mais de três duas décadas de esforço concentrado, em conquistá-la por meio de pesquisa de qualidade, os criacionistas decidiram tentar simulá-la por fricção, associando-se a um nome respeitável. Os perigos são dois: um, a estratégia realmente enganar incautos; outro,  o contágio ocorrer na direção oposta.

Comentários

  1. Enquanto isso, diversas pesquisas importantes paradas ou sequer iniciadas por falta de recursos mínimos...

    Só não entendi a frase final "o contágio pode ocorrer na direção oposta".

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    1. Oi, Rafael! O que eu queria dizer era que, em vez de o DI ser elevado pela reputação do Mackenzie, o Mackenzie acabar sendo puxado pra baixo pelo DI...

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  2. Valeu pelo esclarecimento, Carlos! Acho que estava cansado ontem e não tive a perspicácia de compreender isso. A meu ver, isso já ocorreu: o Mack já ficou manchado por uma iniciativa estapafúrdia dessas.

    O problema é que nosso país está infestado pelo obscurantismo de todo tipo.
    Outro dia fiquei deveras chocado ao ver no Youtube que há gente que acredita piamente que (A) a terra é plana, (B) satélites são ficção e (C) não visitamos a Lua... Nem falo apenas de crédulos religiosos, mas de gente como o canal "Ciência Verdadeira", que deveria ter um pouco mais de esclarecimento, mas acredita em absurdos porque foram proferidos por "otariedades" como Olavo de Carvalho.

    Já passei pro Leandro Tessler, mas acho que você vai gostar desse texto também:

    http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2017/02/counter_lies_with_emotions_not_facts.html

    Também por meio dele, mas não só, vejo que é preciso usar alguma estratégia retórica que lide melhor com brechas cognitivas para acender a chama da descoberta científica nas pessoas tomadas pelas trevas da ignorância.

    É uma tarefa inicialmente inglória, mas pode fazer a diferença daqui um tempo.

    Agradeço pela atenção!!

    Tudo de bom!!

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