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Mostrando postagens de 2017

Tchau, Cassini

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A missão Cassini, uma iniciativa conjunta da Nasa e da Agência Espacial Europeia, chega ao fim hoje. O lançamento da Cassini, em 1997, foi um dos primeiros eventos internacionais de ciência de acompanhei profissionalmente como jornalista, num período extremamente movimentado para o setor -- mais ou menos na mesma época, houve o torneio de xadrez entre Garry Kasparov e o computador da IBM, e também o pouso do primeiro robô móvel em Marte, o Sojourner, da Nasa. Foram bons tempos para escrever sobre ciência. Tudo era muito lúdico, maravilhoso, cheio de esperança. A distopia ainda não tinha nos atropelado.

Fazer um balanço de todo o conhecimento -- e do deleite estético -- que Cassini produziu desde que chegou ao sistema formado por Saturno, suas luas e seus anéis é assunto para livros inteiros, então vou ficar com um só, o dos gêiseres de Encélado:



A imagem acima foi feita ano passado, enquanto a Cassini se aproximava para um último sobrevoo do polo sul de Encélado, uma das luas de Satu…

Tem certeza de que se lembra de onde estava em 11/9?

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O aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 geraram uma verdadeira onda de lembranças nas redes sociais, com pessoas perguntando e relatando onde estavam e o que faziam quando os aviões atingiram as torres. Curiosamente, as memórias do 11/9 foram objeto de diversos estudos sobre a ilusão da permanência das chamadas “flashbulb memories”,  as lembranças de eventos marcantes que parecem ficar  “marcados a ferro e fogo” na memória -- mas não ficam.

Em um artigo publicado no periódico Applied Cognitive Psychology em 2004, o pesquisador da Universidade Duke Daniel Greenberg aponta que o presidente dos Estados Unidos na época dos ataques, George W. Bush, num intervalo de pouco mais de 30 dias – entre 4 de dezembro de 2001 e 5 de janeiro de 2002 – deu três versões diferentes sobre como ficou sabendo dos atentados.

Pior, duas dessas versões continham uma alegação impossível: a de que ele havia assistido à transmissão ao vivo da colisão do primeiro avião com as Torres Gêm…

Campanha de assinaturas do blog

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Quem acessou este blog ao longo do feriado talvez tenha encontrado, no rodapé de algumas postagens, um aviso pedindo assinaturas. Aquilo foi o "lançamento suave" da campanha, que retomo agora, numa versão um pouco mais "hard".

Então.

O blog está pedindo assinaturas. Por quê? Basicamente, porque eu gostaria de ter mais liberdade para escolher meus temas (minhas "pautas", como se diz em jornalismo) e, tendo-os escolhido, mais espaço de manobra para apurar os assuntos do jeito que acho que devo, e escrever depois do jeito que acho que devo.

O fato de o blog não gerar renda muitas vezes me força a ser superficial, a deixar alguns temas que considero importantes de lado enquanto corro atrás da ração do gatinho, etc. Assinaturas são um jeito de contornar isso. Claro, se houver assinantes.O projeto "levantar fundos para o blog" também inclui uma lojinha de livros usados dentro do guarda-chuva da Amazon.com.br, aliás.

Não sei se há gente suficiente, aí…

Ciência das confissões e testemunhas

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Confissões e testemunhos oculares são, ao contrário do que a maioria das pessoas parece imaginar, os tipos mais fracos de evidência, e os que mais levam a condenações injustas. O trabalho da ONG americana Innocence Project mostra que 70% das condenações revertidas graças a exames de DNA tiveram, como principal causa, equívocos cometidos por testemunhas. O assunto foi tema de um estudo financiado pelo governo dos Estados Unidos e que acabou resumido num artigo publicado, neste ano, no periódico PNAS. Diz o paper que "as ciências da visão e da memória indicam que erros judiciários baseados em testemunhos oculares são prováveis, a priori, dadas as condições de incerteza, viés e excesso de confiança".

Excesso de confiança é uma expressão-chave: pesquisa publicada em 2003 sobre memórias de eventos de forte apelo emocional (no caso, o ataque às Torres Gêmeas de Nova York), revela que o grau de confiança que uma pessoa diz ter em suas lembranças não se correlaciona com a veracidade…

Judiciário americano e mudança climática

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A Justiça dos Estados Unidos vem sendo cada vez mais acionada em ações envolvendo mudança climática, e o Judiciário vem assumindo um papel importante na formulação da política climática, afirma artigo publicado na edição mais recente da revista Science. O trabalho, que pode ser acessado neste link, é de autoria de pesquisadores da Universidade George Washington.

"Questões científicas associadas à mudança climática não são muito diferentes de grandes controvérsias anteriores que levaram à litigação, como as que envolveram o tabaco e a exposição a produtos químicos", escrevem os autores. "Esses casos podem oferecer insights sobre os possíveis desenvolvimentos na litigância climática, mas a mudança climática também poderá gerar respostas jurídicas únicas".

Por meio de nota, uma das autoras do estudo, Sabrina McCormick, disse que "decisões judiciais que apoiam ou detêm a ação do governo na questão da mudança climática terão impactos nas emissões de gases do efeit…

Em publicação científica, presas e predadores se confundem

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O Brasil é o 13º país que mais inclui trabalhos científicos sobre biomedicina em periódicos internacionais considerados “predatórios”, que cobram para aceitar artigos e publicam-nos sem exigir qualidade mínima ou submetê-los a um processo adequado de revisão pelos pares. De um levantamento de mais de 1,9 mil artigos lançados em 2016, em mais de 200 desses periódicos, vinte e sete, ou 1,4%, tinham, como principal autor ou autor correspondente, um brasileiro.

Os países que dominam esse “ranking negativo” da ciência são Índia (27%), EUA (15%), Nigéria (5%), Irã (4%) e Japão (4%). O levantamento, encabeçado pelo pesquisador canadense  David Mohrer,  do Ottawa Hospital e da Universidade de Ottawa, fundamenta  um duro artigo de opinião publicado na edição desta semana na revista Nature.

Para os autores, o principal achado da pesquisa foi que, ao contrário do que a comunidade científica supunha, a clientela dos editores predatórios não se concentra nos países de renda média ou baixa. “Mais…

Lição de jornalismo de Carl Kolchak

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Tem gente que diz que escolhas profissionais passam, muitas vezes, por protótipos da ficção: advogados que optaram pelo direito depois de assistir a  Perry Mason, ou médicos inspirados por, sei lá, M*A*S*H* ou Grey's Anatomy.  Há até quem diga que todo jornalista sonha em ser Clark Kent. No meu caso particular, no entanto, se há alguma inspiração em heróis ficcionais, é Carl Kolchak.

O personagem foi criado pelo escritor americano Jeff Rice (1944-2015) para seu romance The Kolchak Papers. Antes mesmo que o livro viesse a ser lançado, a história teve seus direitos vendidos para televisão é foi adaptada por Richard Matheson -- mais conhecido pelo romance Eu Sou a Lenda e por ter roteirizado boa parte da série original Além da Imaginação e dos filmes de Roger Corman "baseados" em Edgar Allan Poe --  como o telefilme The Night Stalker.

A história gira em torno de um repórter, o Kolchak do título, que descobre que um serial-killer que ataca em Las Vegas é, na verdade, um vam…

Ciência marcha em legítima defesa

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Às vezes, um grupo de estudantes universitários me convida para falar sobre divulgação científica. Sempre que posso, compareço, e faço alguma versão da minha apresentação "evangélica" sobre a necessidade de os cientistas se envolverem coma  população em geral, comunicando suas descobertas e tendo o máximo possível de paciência com a mídia. As razões que apresento dividem-se em três grupos: prestação de contas (a pesquisa é financiada com dinheiro público), manutenção da democracia (sem acesso a conhecimento confiável, cidadãos e governos tendem a fazer merda) e a última, que cito enquanto apresento o impressionante slide abaixo...

... é defesa pessoal. Basicamente, numa sociedade onde as pessoas responsáveis por definir o orçamento público são eleitas pelo voto popular, a distribuição das verbas tende a refletir as pressões vindas do eleitorado (ou dos financiadores de campanha, mas essa é outra história). Se o eleitorado está cagando e andando para a pesquisa científica, a …

Vício primário

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Uma coisa que sempre me espanta no Brasil é a incapacidade dos agentes públicos -- e, suponho, da população que os elege -- de levar a sério qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico que não seja baseada em algum tipo de (neo)extrativismo. É o pré-sal da esquerda, são o nióbio e o grafite da direita estulta, são a soja e o boi da direita "esperta", é, agora, o cobre da Amazônia.

Num cenário em que a produção mundial de bens e serviços cada vez mais se estrutura em redes, com centros dispersos de design, montagem, produção de peças e produção de matéria-prima, só o que parece fazer brilhar os olhos dos brasileiros e entrar na visão estratégica dos governantes são exatamente as etapas de menor valor agregado, que mais agridem o meio ambiente e que mais exploram e maltratam a mão-de-obra. Será outro aspecto do tal "complexo de vira-lata"?

Certa vez conversei com um economista que era fã incondicional da política de "Campeãs Nacionais" do ciclo pet…

Raízes do fascismo

Na fogueira retórica em que o debate público brasileiro se transformou nos últimos anos, a palavra "fascista" acabou sendo reduzida a um xingamento genérico, uma espécie de equivalente de "canalha", cuja única especificidade é a de sinalizar em que lado do espectro político o falante se vê. Historicamente, no entanto, "fascista" significa alguém que adere ao "fascismo" -- a doutrina de que os direitos individuais, e os das minorias, são irrelevantes diante da vontade da maioria, do grupo maior, do Todo, vontade essa que é tida como equivalente à do Líder que comanda o Todo. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, vários estudos psicológicos foram realizados para buscar as raízes do fascismo na psiquê humana. Semana passada, escrevi uma matéria a respeito. Ela começa assim:

O que leva uma pessoa a pôr uma bandeira nazista nos ombros e sair por aí gritando “sangue e solo” e “judeus não nos substituirão”? Se você se sentiu tentado a responder “burrice”, s…

Um conto de dois Brunos

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Enquanto pesquisava meu Livro da Astrologia, tive algum contato com o trabalho de Giordano Bruno -- ele foi mais um dos filósofos renascentistas que viam na simbologia astrológica uma espécie de tecnologia mágica para manipular a realidade -- e descobri que, para além de suas especulações sobre a infinitude do cosmo ("apresento-vos minha contemplação sobre o infinito universo e seus mundos inumeráveis", como escreveu certa vez) e dos pronunciamentos heréticos que acabaram por condená-lo à fogueira, o sábio também havia composto uma obra sobre a mnemônica, a arte de fixação e preservação da memória.

No meu tempo, quem estudava para o vestibular acabava bem familiarizado com truques mnemônicos, do tipo "Bela Magrela Casou com Senhor BaRão", que dá os elementos da família 2A da Tabela Periódica. No mundo intelectual da Idade Média e do Renascimento, onde eram comuns disputas retóricas acaloradas e debates ao vivo -- que, eventualmente, poderiam acabar custando a vida…

Os segredos da cratera, e arredores

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Semana passada, passei cinco dias percorrendo a região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, em companhia de um guia local e de um fotógrafo espanhol, contratado para documentar o trabalho de um grupo de cientistas franco-brasileiros na Cratera de Colônia, uma depressão (provavelmente) provocada por um asteroide, milhões de anos atrás. Como a pauta do fotógrafo envolvia a questão ambiental no entorno da cratera, visitamos muita coisa -- favelas, aldeias indígenas -- além do próprio local do trabalho dos cientistas. O resultado da experiência eu destilei nesta reportagem, publicada pelo Jornal da Unicamp.

Educação e catástrofe, novo round

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Em seu livro-reportagem-depoimento The Unpersuadables, o jornalista britânico William Storr narra diversos períodos de sua vida em que conviveu com figuras "impersuadíveis" -- pessoas cujas convicções pareciam inabaláveis mesmo diante da mais sólida evidência. Um dos trechos mais tensos do livro relata a viagem que Storr fez a um campo de extermínio nazista, num tour guiado por David Irving, o notório negador do Holocausto. Sem se revelar como jornalista, o autor passa dias, efetivamente, infiltrado num grupo internacional de neonazistas e simpatizantes.

O Irving delineado no perfil de Storr é um sujeito às vezes arrogante, às vezes simpático, cuja principal força motriz é uma necessidade profunda de desafiar o mainstream -- e, o jornalista especula, de provar que a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi um erro. Storr propõe a hipótese de que Irving, que era criança durante a "blitz", teve sua infância arruinada pela guerra, e ressente-se disso: sua …

O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência

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Quem viu a postagem anterior do blog sabe que andei meio fora de contato com os dramas da civilização nesta semana. Ao que parece, enquanto eu me envolvia com questões menores como a devastação da Mata Atlântica, a poluição das águas, a sustentabilidade das comunidades indígenas e a pesquisa sobre o paleoclima do Hemisfério Sul, algo realmente importante estava acontecendo --  a saber, a demissão de um engenheiro do Google, por ter divulgado um memorando que argumenta que a política da empresa de buscar paridade de gênero em todas as áreas, incluindo liderança e programação, é injusta, incorreta e viola as conclusões da melhor ciência disponível, ciência essa que apontaria uma inadequação inata do sexo feminino para essas posições.

Mas, enfim. Como tenho um histórico de discutir questões envolvendo o choque entre ciência e preconcepções políticas (como em minhas várias postagens sobre aquecimento global e transgênicos), e o assunto envolve o princípio da liberdade de expressão, algo …

Cratera, represa, pobreza e meio ambiente

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A região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, abriga as represas Billings e Guarapiranga, cinco aldeias guarani (sete, se contadas as duas que ficam na mesma área geral, mas já no município de São Bernardo do Campo) e uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro cuja origem á provavelmente meteorítica -- mas disso ninguém tem certeza. Foi percorrendo esse meio que passei os últimos dias, desde o fim de semana passado (notaram que dei uma sumida da internet?), acompanhado pelo guia Fernando Bike -- morador da comunidade de Vargem Grande, que ocupa parte da chamada Cratera de Colônia -- e acompanhando o fotógrafo Moises Saman, da Agência Magnum.

Saman veio ao Brasil  como parte do investimento do banco francês BNP Paribas no estudo da cratera: uma missão franco-brasileira cientistas está, nesta semana, realizando uma perfuração ali para retirar sedimentos de uma coluna que, esperam os pesquisadores, cobrirá um período passado de 800 mil a 1 milhão de anos.

A operação, delicada, envo…

Evolução a jato em lago de hidrelétrica

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Desde que Charles Darwin retornou à Inglaterra, depois da viagem do Beagle, e se pôs a matutar sobre as 13 diferentes espécies de tentilhão encontradas nas  Ilhas Galápagos, que o isolamento de diferentes populações de uma mesma espécie animal em ilhas, ou em ilhas e no continente, é apontado como um fator que impulsiona a evolução. Não haveria por que imaginar que em ilhas formadas pela ação humana a coisa fosse ser diferente. Trabalho publicado nesta semana no periódico PNASaponta que, em menos de 20 anos desde a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, em Goiás, os lagartos da espécie Gymnodactylus amarali que ficaram "naufragados" em ilhas já divergem consideravelmente dos colegas deixados nas margens.

De autoria de pesquisadores brasileiros e americanos -- e liderado por Mariana Eloy de Amorim, da UnB e da Universidade da Califórnia -- o estudo constatou que as populações que ficaram isoladas nas ilhas agora têm cabeças maiores que os primos que permane…

Cidades perdidas, alfabetos estranhos

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Geralmente, quando se fala em pseudoarqueologia, as pessoas pensam em deuses astronautas pairando sobre as pirâmides, egípcios ruivos emigrando para o México (ou o Peru), Atlântida, templários ou tribos perdidas de Israel na América do Norte ou, um clássico moderno, pirâmides na Bósnia. O brasileiro pode se sentir meio desvalorizado diante de tanta exuberância lá fora. Mas não há razão: existe, sim, uma pequena, porém operosa, indústria de "mistérios do passado" baseada em artefatos nacionais. Ela só é pouco conhecida.

O primeiro desses artefatos é o chamado Documento 512 da Biblioteca Nacional (de onde vem a imagem que abre esta publicação, aliás). Supostamente escrito na década de 1750, mas só vindo a público em 1839, ele narra a descoberta, por um grupo de bandeirantes, dos vestígios de uma civilização perdida no interior da Bahia.

Como relata o historiador Johnni Langer em artigo publicado na Revista Brasileira de História, a mera possibilidade de o Brasil ter abrigado …