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Mostrando postagens de 2017

Partido da ciência?

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Pesquisadores brasileiros, assustados com os cortes suicidas no financiamento público para a ciência, analisam a possibilidade de criar um partido político para fazer a representação e a defesa dos cientistas nas instâncias em que se decide a divisão do butim -- desculpe -- da verba pública. Em princípio, não há nada de essencialmente ruim com a ideia. Se pastores evangélicos têm seus próprios partidos, por que não cientistas? Há até alguma base -- científica -- para a ideia.

Lá nos idos de 2010, fiz uma entrevista com o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007, Roger Myerson, que na época fazia um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só depois, dos candidatos, seguindo a ordem de escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do elei…

Ficção científica e eu

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Eu às vezes escrevo ficção científica. Já escrevi mais, é verdade, mas já faz um tempo que ando espaçando (sem trocadilho) minha produção no gênero. Já falei sobre essa pausa em postagens anteriores, mas, resumindo: a ficção científica, para mim, entrou na fase de retornos reduzidos, em que a energia gasta na produção da história acaba superando as recompensas (materiais e outras) da publicação. De qualquer maneira, ainda tem muita gente que me identifica com o gênero, o que é perfeitamente compreensível: não dá pra passar mais de 20 anos fazendo uma coisa sem que a "coisa" acabe grudando na sua pele, por assim dizer.

Por conta disso, às vezes me convidam para palpitar a respeito. A oportunidade mais recente veio da Revista ComCiência da Unicamp, para a qual produzi o artigo A Veia Obscurantista da Ficção Científica, uma chance fantástica de refletir sobre algo que me incomoda há tempos: por que um gênero -- literário, cinematográfico, quadrinístico, radiofônico, etc. -- qu…

Homeopatia, evidência e a importância do "no entanto"

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Os leitores mais chegados ao mundo acadêmico talvez estejam sabendo da celeuma causada pela publicação, no Jornal da USP, de nota anunciando o lançamento de uma revista reunindo supostas evidências científicas a favor da homeopatia, mais um lance nas "homeopathy wars" da vetusta Universidade de São Paulo. Algumas pessoas criticaram o jornal por dar guarida a esse tipo de material, mas eu, talvez movido por espírito de corpo, ponderei que, se a universidade, enquanto instituição, legitima a prática -- por exemplo, conferindo graus de Mestre e Doutor a autores de trabalhos sobre o tema --, não é o coitado do editor do jornal institucional que vai decidir sozinho que o assunto é bobagem.

Mas, enfim: evidências! Que evidências? Passando os olhos pelo índice da edição, um título em especial se destaca: Pesquisa clínica em homeopatia: revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados controlados. O resumo do artigo proclama que, com base em estudos publicados até 2014 e numa …

Charlatão que prometia curar câncer é preso

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Nos Estados Unidos. A mídia norte-americana informa que Robert O. Young, autor de uma popular série de livros pseudocientíficos sobre saúde e dieta intitulada pH Miracle, vai passar pelo menos cinco meses atrás das grades depois de confessar oferecer -- sem ter nenhuma credencial médica -- tratamentos para câncer. De acordo com o jornal The San Diego Union-Tribune, "ele havia sido condenado, ano passado, em duas acusações de praticar a medicina sem licença, e se declarou culpado, no início deste ano, por mais dois crimes".
O relato do Union-Tribune prossegue: "Young, de 65 anos, não se manifestou durante a audiência judicial, que marcou o fim de um processo criminal de três anos que pôs em evidência suas teorias controversas e os tratamentos caros que oferecia a pacientes gravemente doentes ou moribundos, que em alguns casos recebiam fluidos intravenosos misturados a bicarbonato de sódio, por US$ 500 a dose".

Um caso especialmente notório envolvendo Young foi o da…

Leitura sensível e umas coisinhas mais

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Costumo não escrever muito sobre literatura. Acho que a melhor forma de mostrar como acho que se deve escrever ficção é aplicando minhas crenças e idiossincrasias à minha obra, não dando palpite no que os outros fazem. Mas essa polêmica toda em torno da questão da "leitura sensível" (também aqui) acabou tangenciando alguns temas que me são caros, então lá vou eu fazer o que não devia.

Pelo que depreendi, esse tipo de trabalho, em que um texto é submetido, pré-publicação, a um leitor crítico identificado com um grupo social minoritário que analisará o conteúdo vis-a-vis as sensibilidades particulares do grupo,  pode cumprir uma de duas funções, ou ambas: orientar o method writer -- aquele que, como os atores "de método", faz  questão de conhecer, entender e sentir "na pele" um assunto antes de retratá-lo na ficção -- ou alertar o autor para o uso de palavras, expressões, situações, etc., consideradas ofensivas pelo grupo a que o "leitor sensível"…

Trump, Bolsonaro, QI e nióbio

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E continuo a produzir colaborações para o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Depois da "trilogia" Homeopatia, fosfo, mudança climática, do início do mês passado, agora tenho dois novos textos no ar, ambos com uma pegada que mistura ciência e política.

O mais recente, intitulado Você tem um QI maior que o de Donald Trump? Descubra, se divide em duas partes, uma sobre os estudos publicados em periódicos norte-americanos sobre os fatores -- incluindo inteligência -- que levam um presidente a entrar para a história como chefe de um governo bem-sucedido, e a segunda, sobre testes de inteligência e a hipótese das "múltiplas inteligências". Já o anterior,  O nióbio vai salvar a economia do Brasil, como defende Bolsonaro?, tem um título altamente autoexplicativo.

Há ainda o outros textos engatilhados, e vou avisando, por aqui e nas redes sociais, à medida que o material for aparecendo.

A essência do jornalismo de "saúde e bem-estar"

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Vindo diretamente do sempre ótimo xkcd.


Unboxing the Gibson Box

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Há alguns -- muitos? -- anos, fiz uma série de trabalhos para a Editora Aleph, incluindo revisão, copidesque e, às vezes, até a tradução parcial de alguns títulos de ficção científica. Atualmente, quando sai uma nova edição de um dos livros em que trabalhei, a editora às vezes me manda um exemplar de cortesia. Hoje, voltando do almoço, fui surpreendido na portaria do prédio pelo "box" William Gibson, que reúne os três volumes da Trilogia do Sprawl, publicada originalmente entre 1984 e 1988 e que traz aquele futuro cyberpunk de cabo Phillips no cérebro e ônibus espaciais japoneses que todos conhecemos.

Dos três livros, em Neuromancer (o primeiro) não fiz nada, em Mona Lisa Overdrive (o último) fiz a revisão (ou ao menos é o que diz a ficha técnica: confesso de pés juntos que não me lembro), mas no do meio, Count Zero, trabalhei bem próximo ao tradutor, Carlos Angelo,  fazendo sugestões sobre o texto em português e cotejando-o com o original à medida que a tradução avançava. …

Mijo de cavalo e a derrota da Anvisa

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"Pode ser mijo de cavalo, não ligo. Funciona". A frase teria sido dita pelo presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, quando lhe informaram do conteúdo das injeções estimulantes que o médico alemão Max Jacobson lhe aplicava regularmente: anfetaminas, hormônios, analgésicos, esteroides y otras cositas más. Não é muito difícil imaginar o espírito de Jacobson, cuja "injeção mágica" provavelmente ajudou a destruir a vida de gente como Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, pairando, em bênção, sobre o presidente da Câmara e presidente em exercício da República, Rodrigo Maia, durante a sanção da lei que passou por cima da Anvisa e liberou o uso de inibidores de apetite à base de anfetaminas no Brasil.

Sobre os detalhes da decisão legislativa brasileira e seu "embasamento" técnico, o editorial deste sábado da Folha de S. Paulo é sucinto e direto ao ponto:


Algo que deve (ou deveria) dar margem a análises mais aprofundadas  é o papelão das entidades de classe …

Perguntam-me sobre orgonite...

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Um amigo no Facebook me marca numa postagem e sugere, "discorra sobre o orgonite". Até acessar a postagem eu jamais tinha ouvido falar na palavra, mas a morfologia traz pistas: há a semelhança fonética com "orgone" (ou "orgônio"), a suposta energia sexual universal postulada pelo revolucionário, louco e/ou charlatão (mais sobre isso à frente) Wilhelm Reich; e há o sufixo inglês "ite", em português, mais propriamente, "ita", que costuma aparecer no nome de rochas e minérios (cassiterita, hematita, pirita, etc.). Então, seria uma pedra relacionada ao orgone?

Exatamente -- como este link, por exemplo, revela. Agora, como "discorrer" sobre isso? Apenas dizer "mais uma bobagem" deve soar insatisfatório para quem está lendo. Mergulhar na vida e na obra de Reich em busca do momento em que ele cruzou a barreira entre pensador instigante e doido de pedra é assunto para teses universitárias (e imagino que deva haver algumas …

Arma de fogo e saúde pública

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Um dado curioso no debate empírico sobre a posse de armas de fogo por cidadãos comuns é que ele geralmente gira em torno da questão da segurança pública, e muito pouco da questão da saúde pública. Parando para pensar no assunto, é uma situação estranha: se coisas como automóvel, cachaça, cigarro e até telefones celulares são avaliadas sob a perspectiva do efeito na saúde da população, por que não armas de fogo?

Resposta: porque, nos Estados Unidos, país que financia a maior parte das pesquisas sobre saúde do mundo, um poderoso lobby político sabota, quando não ostensivamente proíbe, qualquer tentativa de se usar dinheiro público para enquadrar as armas de fogo como questão sanitária. Uma peça de opinião publicada recentemente na revista Nature volta a chamar a atenção para esse problema. Em 2013, um abaixo-assinado de uma centena de cientistas já batia na mesma tecla.

"O governo dos Estados Unidos, em  benefício do lobby da bala, limita a compilação de dados, impede que pesquisad…

A múmia começou mulher

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Meu masoquismo cultural ainda não foi forte o suficiente para me levar a ver o novo filme de Tom Cruise, A Múmia, mas alguma atenção especial vem sendo dada ao fato de que, desta vez, o monstro-título pertence ao sexo feminino. Curiosamente, esta é uma decisão até que bem ortodoxa: embora a múmia no cinema tenha sido celebrizada como uma figura masculina -- por Boris Karloff e, depois, Lon Chaney Jr. e Christopher Lee -- seus principais antecedentes literários eram, na maioria, mulheres.

Há um bocado de antropologia escrita em torno do fascínio dos autores britânicos do século 19 com "horrores do Egito". A introdução da antologia Lost in a Pyramid, publicada pela British Library, localiza o início dessa obsessão com a construção do Canal de Suez, entre  1859 e 1869.



A que talvez seja a primeira história ocidental de terror girando em torno de uma múmia egípcia, intitulada exatamente Lost in a Pyramid, publicada em 1869, envolve não apenas uma mulher mumificada como foi escr…

Mulher-Maravilha e o Grande Desastre

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Esta postagem contém leves spoilers sobre o filme


Muito se tem falado, e com, razão, da influência do trabalho do argumentista e desenhista George Pérez no título em quadrinhos da Mulher-Maravilha, principalmente no relançamento da personagem que ele promoveu na segunda metade da década de 80, sobre o filme em cartaz, estrelado por Gal Gadot. Assim como o filme, Pérez se preocupou em amarrar a personagem de modo mais consistente à mitologia grega e fez do deus da guerra, Ares, o principal antagonista. Mas, assistindo a Mulher-Maravilha no cinema, ocorreu-me que um outro canto, menos conhecido, do universo DC também teve papel importante, se não fundamental, na concepção do longa-metragem: a cronologia pós-apocalíptica do Grande Desastre.

Dá para dizer que a primeira série vinculada ao Grande Desastre foi a de Kamandi, "o último rapaz da Terra", escrita e desenhada por Jack Kirby a partir de 1971. Mas a ideia de um universo completo vinculado ao Desastre -- uma terceira guerr…

Sorte ou mérito?

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O anúncio de que a Unicamp realizará estudos para implantar um sistema de cotas em seu vestibular reacendeu não só o debate em torno desse tipo específico de medida (sobre o qual já me manifestei aqui), mas também uma discussão de fundo sobre a origem do sucesso (social, econômico, etc.): sorte ou mérito? Quando uma pessoa se destaca das demais, ela deve isso a suas qualidades e esforço, ou a oportunidades que o acaso jogou em seu caminho? A resposta óbvia seria "um pouco dos dois", mas daí surge uma nova questão: é meio a meio? um dos fatores predomina?

Embora o bom senso sugira que cada caso é um caso, a polarização ideológica da sociedade atual levou à criação de campos distintos, com a direita batendo na tecla do mérito e a esquerda, na da sorte (ou "privilégio"). Para complicar ainda mais a situação, vieses cognitivos turvam a questão, com muita gente que "se deu bem" achando que conseguiu tudo sozinho, na marra; e com muita gente que enfrenta obstá…

Entusiasmo natural

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Uma das narrativas mais cativantes da ciência contemporânea é a do produto natural validado em laboratório: a história do(a) pesquisador(a) que se embrenha na mata, estuda aos pés de velhas benzedeiras e sábios pajés, leva a flor, a lagarta, a folha ou a raiz de volta para a civilização e, dali, obtém a molécula que vai combater a hipertensão, o câncer, as rugas e os pés-de-galinha.

Há muito a admirar nesse tipo de conto. Entre outras coisas, ele sublinha o valor da biodiversidade e o fato de que a sabedoria tradicional e o conhecimento científico podem coexistir num clima de respeito mútuo e maior benefício para a humanidade. Seria difícil encontrar algo mais alinhado ao zeitgeist -- ou, ao menos, àquilo que as pessoas bem-pensantes gostariam que fosse o zeitgeist.

O problema é que o entusiasmo com uma ideia que parece boa demais por motivos emocionais, morais ou políticos pode acabar escondendo evidências de que ela talvez não seja cientificamente tão sólida assim. Por exemplo, em …

Homeopatia, "fosfo", mudança climática

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Há alguns meses, comecei a produzir material, de forma esporádica, para o caderno Ideias do jornal paranaense Gazeta do Povo. Com minha saída da Unicamp, a produção cresceu naturalmente e, na última quinzena, a Gazeta acabou publicando três textos meus que têm muito a ver com o material que comumente aparece neste blog. Divulguei tudo nas redes sociais, mas como sei que esses são canais de oportunidade -- tem de calhar da pessoa interessada estar olhando pra timeline na hora em que o link aparece -- resolvi juntar tudo aqui, para que quem frequenta o blog possa ter acesso ao material de modo mais estável.

Os temas são os que aparecem aí em cima, no título da postagem. Aos links:

Por que a homeopatia, mesmo sem comprovação, ainda tem espaço no Brasil? Este é um misto de artigo e reportagem que toma como "gancho" a polêmica (que ainda grassa) no Jornal da USP a respeito da validade da homeopatia como hipótese científica, disciplina acadêmica e prática médica.

Fosfoetanolamina, …

Livro dos Milagres: último lote autografado!

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Tenho aqui pra vender um lote de cem exemplares de O Livro dos Milagres. Algum leitor do blog interessado? Prometo autografar cada exemplar vendido. Publicado em 2011 pela prestigiada editora de obras de divulgação científica Vieira & Lent (que, entre outras coisas, "descobriu" a Suzana Herculano-Houzel), O Livro dos Milagres foi meu primeiro livro de não-ficção.

Eu já estava com boa parte dele na cabeça quando saí do Estadão, em dezembro de 2010, e a escrita fluiu rapidamente. Ele seguiu a mesma vocação de best-seller da minha obra ficcional -- isto é, nenhuma -- mas foi lá encontrando seu público leitor.

Como o título sugere, o livro trata da investigação científica de supostos eventos milagrosos -- curas em santuários marianos, ou ritos neopentecostais, gente que "fala em línguas", etc. --  e aborda ainda supostos milagres históricos como a abertura do Mar Vermelho, ressurreição de Jesus ou as visões de Maomé. O olhar crítico é, enfim, ecumênico.

Que mais? …

Pânico moral na cracolândia

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Será que as ações recentes da prefeitura paulistana da chamada cracolândia refletem um pânico moral?

Explicando: "pânico moral" é o nome dado por cientistas sociais a situações em que a sociedade, ou uma parte da sociedade, é tomada por uma preocupação irracional e exagerada em relação a uma circunstância que, por algum motivo, é vista como um problema social. Alguns críticos desse conceito queixam-se de que "pânico moral" é apenas um pejorativo usado por uma parcela da sociedade para desqualificar as preocupações de outra, já que não há uma definição objetiva do que seria um "exagero".

Os defensores da validade da expressão, por sua vez, citam exemplos como a Caça às Bruxas do fim da Idade Média e a onda de medo que tomou conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, nos anos 80, associada a alegações de que cultos satânicos estariam sequestrando e abusando de crianças. Nada pode ser mais objetivamente exagerado, apontam, do que uma convulsão social em tor…