Transições na evolução

O registro fóssil é incompleto e imperfeito: estima-se que menos de 1% das espécies que já viveram tenham deixado restos fossilizados, o que é compreensível -- a fossilização em si é um processo raro, que requer condições especiais para acontecer. A despeito disso, no entanto, há nele uma abundância de formas transicionais, que permitem traçar o processo de descendência com modificação que é a marca da evolução biológica. Quem afirma que não existem fósseis de transição é como a criança que, ao receber uma notícia ruim, tapa os ouvidos, fecha os olhos e fica gritando "lá-lá-lá" na esperança de que a incômoda realidade vá embora.


Em The Princeton Guide to Evolution, Gregory C. Meyer não só cita o Archeopteryx (imagem imediatamente acima), descoberto em 1861 com penas e asas de pássaro mas cauda, dentes e garras de réptil, como também aponta que a transição entre sinapsídeos -- répteis primitivos -- e mamíferos está bem marcada no registro fóssil. A ilustração abaixo, retirada do Guide, mostra a progressiva adaptação dos ossos da mandíbula do sinapsídeo, que acabaram dando origem à mandíbula e aos ossos do ouvido interno dos mamíferos modernos:



Outra transição bem documentada por fósseis e citada por Meyer é a entre peixes ósseos e tetrápodos (animais vertebrados dotados de quatro membros -- quatro patas, duas pernas e dois braços, duas patas e duas asas, etc., incluindo os que ao longo da evolução perderam ou descaracterizaram seus membros, como cobras e baleias). É no caminho entre peixe e tetrápodo que encontramos o Tikaalit, fóssil que abre esta postagem. Mais uma vez, uma ilustração tirada do Guide:


Nesse caso, a ordem cronológica da sequência é de baixo para cima. O detalhe à direita mostra a estrutura interna da nadadeira/pata, com sua formação do tipo "um osso, dois ossos, muitos ossos" comum aos membros dos tetrápodos, do braço humano às pernas do cavalo e às asas do papagaio. Sobre isso, mais duas ilustrações.

Primeiro, "braços":



Em seguida, "pernas":


Assim como a transformação dos ossos da mandíbula do réptil nos do ouvido dos mamíferos, a repetição dessa estrutura "um, dois, muitos" nos membros dos tetrápodos, sejam eles asas, braços, pernas ou nadadeiras, não atende a uma necessidade de otimização funcional -- o que poderia ser visto como sinal de projeto inteligente ou criação especial -- e, sim, sugerem fortemente um processo de adaptação a partir do que já estava disponível num ancestral comum.

Este é outro ponto importante: embora os fósseis de transição existam, eles não são necessários para que se possam inferir processos de transição entre as linhagem dos seres vivos. A vida atual, presente, já oferece evidência mais do que suficiente: nunca é demais lembrar que foi da observação de formas vivas que Charles Darwin tirou sua inspiração inicial.

Sinais assim aparecem também na genética e na biologia molecular. Por exemplo, a maioria dos mamíferos é capaz de produzir vitamina C em seus corpos, sem a necessidade de consumi-la na dieta. Os primatas (incluindo os humanos) não têm essa habilidade, embora seus genomas contenham os genes necessários -- mas um deles está desativado, tendo perdido sua função numa mutação que atingiu um ancestral comum do grupo. De novo, fica difícil atribuir a presença de um gene quebrado a algum processo racional de otimização. Mas... lá-lá-lá...

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