terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Já parou de bater na sua mãe?

Ninguém está livre de encontrar uma pergunta capciosa de vez em quando. E quando a pergunta aparece num formulário impresso, onde respostas mais elaboradas -- como, por exemplo, "nunca bati em minha mãe, pelo menos não deste lado do útero" -- são meio difíceis de encaixar, o resultado pode ser bem embaraçoso.

Ou enganoso. É por isso que a criação de questionários para pesquisas de opinião pública, ou para censos populacionais, é uma arte tão delicada. Um caso interessante é o do recente censo da Inglaterra e País de Gales, que revelou um aumento de mais de 60% na proporção de pessoas que se declaram sem religião.

Parte deste salto se deve, provavelmente, à campanha lançada pela Associação Humanista Britânica, exortando as pessoas que não praticam a religiosidade a responder "nenhuma" à pergunta "qual sua religião".

Com o provocativo título de "Se você não é religioso, pelo amor de Deus, diga isso", a campanha pedia que os britânicos que mantém uma identidade religiosa meramente inercial -- no Brasil, o caso típico seria o da pessoa que não vai à missa há anos, usa anticoncepcional e namora um divorciado, mas que se considera "católica" porque é o que a vovó gostaria de ouvir -- que reconhecessem o fato e fossem sinceras ao responder ao censo.

A campanha chamava atenção para o caráter capcioso da questão sobre religiosidade do censo, já que a pergunta é formulada do seguinte modo: "Qual a sua religião?", o que deixa subentendido que a pessoa deve ter uma. Pesquisa realizada pela Associação Humanista havia mostrado que, respondendo a essa pergunta, 53% das pessoas se declaravam cristãs. Já à fórmula "Você é religioso?", 65% responderam "não".

Mais ainda: 48% dos 53% de autodeclarados cristãos disseram não acreditar que Jesus é o filho de Deus que voltou dos mortos. É razoável supor que essas pessoas só se declararam cristãs porque a pergunta, "Qual sua religião", não deixava clara a distinção entre filiação cultural (ter sido criado num meio dominado pelo cristianismo) e adesão religiosa.

Trata-se, no entanto, de uma distinção importante. Números sobre religião e religiosidade são levados em conta na formulação de discursos eleitorais -- os candidatos têm de saber qual a maioria que deve ser bajulada --, com reflexo sobre políticas públicas e, claro, no balanço de poder entre os diversos grupos de pressão que tentam influenciar o governo. Se não fosse a percepção de que há milhões de devotos católicos no Brasil, a CNBB não se sentiria com cacife para fazer lobby na nomeação de ministros para o STF.

Ah, sim, o Brasil. A pergunta sobre religião no formulário amostral do Censo 2010 aparecia assim:








Repare que a questão anterior, sobre a língua usada no domicílio, toma um certo cuidado em evitar uma leitura capciosa (uma vez que os mudos, estritamente, não "falam", o parêntese avisa que o uso de linguagem de sinais também conta). Já os não religiosos não recebem a mesma cortesia.

A pergunta não só subentende, de forma peremptória, que o cidadão deve ter uma religião -- as outras questões que começam com  "qual a sua..." tratam de características universais: data de nascimento, idade e etnia -- como ainda oferece, como única alternativa, "culto" (se esse formulário completo tivesse aparecido lá em casa, acho que eu respondia "satânico").

Mesmo assim, 8% dos respondentes se declararam "sem religião". É de se imaginar qual teria sido o número  se a questão, na fórmula mais honesta sugerida pela associação britânica -- "Você é religioso?" ou, talvez, "Você tem religião?" estivesse incluída.

Uma tentativa de medir o total de ateus do mundo, lançada pela Aliança Ateia Internacional, funcionou por 17 horas antes de ser derrubada por hackers. Seria bom que voltasse ao ar.

2 comentários:

  1. No Brasil, pelo Datafolha, 98% dos brasileiros dizem acreditar em deus ou em uma força superior. Inclusive 40% dos ateus.

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Lembro de um dia quando assistia ao Jornal Nacional, da Globo, em que divulgavam os resultados do Censo 2010. Já esperava que o grupo dos "sem religião" fosse o último, mas os números não foram ditos pelo apresentador William Bonner.
    Deve ser duro demais anunciar o aumento dos "gentios"

    A saber Censo 2010 - Tabela 1.4.1:
    ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/tab1_4.pdf


    MMO

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