quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O zodíaco ataca novamente

Não sei se vocês notaram, mas nas últimas semanas houve uma pequena celeuma nas redes sociais porque a Nasa teria "mudado o signo astrológico" das pessoas. Claro, isso é uma bobagem. Foi, na verdade, apenas mais uma das infindáveis "redescobertas" da existência de Serpentário, a décima-terceira constelação do zodíaco, e da precessão dos equinócios. Essa história de que existem 13 signos (14, na verdade, se contarmos o fragmento da constelação de Baleia) da faixa zodiacal, e de que a posição real das constelações no céu não bate com a dos mapas astrais, é uma das novidades mais antigas do mundo -- eu mesmo tratei do assunto numa das postagens inaugurais deste blog.

Por coincidência, enquanto a tal "polêmica" dos signos cumpria seu ciclo facebookiano de de estouro-e-sumiço, chegava aqui em casa a edição mais recente de Correlation, o "journal" da Associação Astrológica da Grã-Bretanha. Como expliquei numa postagem anterior,  assinei Correlation como parte de minha pesquisa para escrever O Livro da Astrologia -- assinantes têm acesso aos arquivos históricos do periódico. Correlation publica artigos, muitos deles formatados como "papers" científicos ("abstract", tabelas, etc.) sobre a arte astrológica.

Essa edição recente traz a resenha do que parece ser um livro muito interessante sobre a história do esoterismo ocidental, por Nicholas Campion (cuja história da astrologia foi uma de minhas fontes) e, outra coisa que me chamou a atenção, uma defesa da reanálise dos dados apresentados no livro Astrology File, de Gunther Sachs. Publicado em 1998, o trabalho de Sachs, baseado na tabulação dos dados do censo suíço e comportando, graças a esse fato, informações referentes a milhões de indivíduos, foi saudado como uma "prova científica" da astrologia, ao encontrar correlações entre signo solar e escolha de profissão, e entre signos e casamentos.

O estudo, no entanto, logo foi invalidado por uma série de questões de metodologia. Três críticas completas podem ser lidas aqui mas, resumindo: os efeitos eram muito pequenos, podendo ter sido causados por perturbações que nada têm a ver com astrologia (por exemplo, a distribuição de nascimentos não é exatamente uniforme ao longo do ano, logo não é correto pressupor que 1/12 da população nascerá em cada signo); os resultados são inconsistentes entre si; as técnicas estatísticas usadas não eram as mais adequadas.

Além disso, dados de censo tendem a apresentar pequenos problemas no registro das datas de nascimento -- se uma pessoa só responde ao formulário pela família inteira, há o risco de ela inconscientemente repetir seu mês de nascimento ao preencher o do cônjuge -- que acabam amplificando o número de casais do mesmo signo.

A artigo em Correlation mergulha nos dados de Sachs e nos de outro autor, Didier Casttille, que tentou refazer o trabalho de Sachs usando uma base de dados francesa. O texto defende algumas conclusões positivas sobre a realidade das afinidades astrológicas no campo do romance, fazendo apenas uma menção de passagem às críticas aos métodos aplicados. Outro artigo, na mesma edição de Correlation, tenta escavar algo mais de significativo na base de dados de Gauquelin, agora valendo-se dos nodos lunares, os pontos em que a órbita da Lua cruza o plano da órbita terrestre.

Em linhas gerais, os dois trabalhos exemplificam a prática de torturar os dados, considerados válidos a priori, até que eles digam alguma coisa -- qualquer coisa -- que vá de encontro às expectativas pessoais dos autores.

Como se trata de astrologia é fácil, para a maioria de nós, perceber os vieses implícitos, o abuso da aplicação automática de testes estatísticos, a perda de significância causada pela enésima reanálise da mesma base de dados. Já numa dissertação de mestrado ou numa tese de doutorado parece que é mais difícil detectar essas coisas. Nesse aspecto, a astrologia ainda pode ser muito didática.

Holograma de som

Uma placa de plástico, fabricada por impressão 3D, mostrou-se capaz de modular ondas de ultrassom e produzir hologramas acústicos – campos sonoros complexos que podem ser usados para manipular e mover objetos na água ou no ar, de forma controlada. A placa é colocada diante do alto-falante que emite o ultrassom.

O desenvolvimento e o teste da placa são descritos na Nature. A técnica demonstrada foi capaz de produzir o desenho de uma “pomba da paz” a partir de partículas suspensas num líquido, e de manter uma gota d’água flutuando no ar. Os autores, de instituições alemãs, escrevem que o sistema é capaz de levitar objetos com uma densidade máxima comparável à do alumínio.

“Esperamos que, com transdutores maiores e mais potentes, será possível gerar imagens mais complexas e manipular objetos de densidades mais elevadas”, escrevem. “Transdutor” é o nome dado a aparelhos que convertem uma forma de energia em outra – no caso de alto-falantes, sinais elétricos em som. Esta nota faz parte da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os malucos e a estufa

"É difícil fazer um homem compreender um fato quando seu salário depende de uma continuada incompreensão". A frase, do romancista americano Upton Sinclair (1878-1968) é repetida diversas vezes no livro The Madhouse Effect ("O Efeito Hospício", em tradução literal), escrito a quatro mãos pelo cientista Michael E. Mann e pelo cartunista Tom Toles. Mann, climatologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, é um dos autores do histórico "paper" que apresentou a primeira versão do chamado "gráfico do taco de hockey", que mostra como as temperaturas médias globais dispararam ao longo do século 20:

A linha azul reproduz o "bastão de hockey" original, publicado em 1999. A vermelha, temperaturas reais de 1850 e até 2013 

Madhouse Effect -- o título é um trocadilho entre "madhouse" ("hospício") e "greenhouse" ("estufa") -- é uma mistura de divulgação científica e polêmica política em torno das disputas sobre o aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis.

A parte sobre ciência é bem simples e esclarecedora. Mann e Toles lembram que o fato de que a atmosfera terrestre aprisiona energia solar já havia sido deduzido por Joseph Fourier há quase 200 anos; que o papel destacado do CO2 e do vapor d'água nesse processo foi identificado por Svante Arrhenius há mais de 100; que não existe, aliás, nenhuma controvérsia quanto a essa propriedade específica do dióxido de carbono, de capturar calor: ela é levada em conta, por exemplo, no design de mísseis termoguiados.

Some-se a esses fatos bem estabelecidos apenas mais um, também nada polêmico -- o de que a queima de petróleo, carvão e outros hidrocarbonetos produz CO2 -- e temos um raciocínio completo e direto: CO2 impede que a Terra devolva ao espaço o calor recebido do Sol. Quanto mais CO2, mais calor fica aprisionado. Quanto mais petróleo usamos, mais CO2 emitimos. Usamos petróleo pra dedéu. Logo, aquecimento global.

Claro que, em se tratando de ciências físicas, cadeias dedutivas não bastam: é preciso confrontá-las com observações e experimentos. Afinal, mesmo que o encadeamento lógico, construído a partir das premissas conhecidas, seja perfeito, sempre é possível que a natureza tenha deixado alguma premissa oculta pelo caminho.

No caso do aquecimento global causado por atividade humana, Mann e Toles concedem que, pelo menos até os anos 70 do século passado, era concebível que o efeito fosse, de algum modo, autolimitante: talvez outras formas de poluição emitidas junto com o CO2 fizessem "sombra" na Terra e reduzissem a radiação solar incidente (o mesmo princípio, ainda que numa escala bem menos dramática, do Inverno Nuclear). Ou talvez o aumento na evaporação de água produzisse mais nuvens e essas nuvens, sendo brancas, refletissem a luz do sol de volta ao espaço.

Mas Madhouse Effect aponta que, pelo contrário, as observações e experimentos conduzidos nos últimos 40 anos mostraram que o efeito estufa não é autolimitante e, sim, autoacelerante: não só o ganho em nuvens e sujeira não equilibra o aumento de temperatura, como a perda do gelo (branco, refletor de luz solar) nos oceanos expõe a água (escura), e o aquecimento dos solos congelados libera metano, outro gás do efeito estufa. Existe até mesmo um ensaio recente de filosofia da ciência descrevendo como e por quê pesquisadores, incluindo alguns que esperavam um efeito predominante da poluição "refrigeradora", mudaram de ideia e passaram a aceitar o aquecimento global.

Mann e Tobes também tratam da questão de como se pode afirmar que essa ou aquela tempestade, seca,  onda de calor, etc., foi provocada pelo aquecimento global de causa humana, ou se "teria acontecido de qualquer jeito". Madhouse Effect condena veementemente o argumento clássico de que não se pode vincular eventos específicos, como o furacão Katrina (que devastou Nova Orleans) ou a supertempestade Sandy (que causou danos graves a Nova York) ao fenômeno.

Os autores comparam o excesso de CO2 injetado na atmosfera pela atividade humana a uma espécie de dopping do sistema climático e perguntam: faz sentido questionar, a cada vitória ou recorde individual de um atleta dopado, se o resultado foi natural ou efeito dos esteroides?

Dada a ciência estabelecida, tanto na teoria quanto na prática, como o negacionismo climático persiste? É aí que o livro assume seu lado de polêmica política. Os autores denunciam a existência de uma espécie de carreira de "negadores profissionais", pesquisadores que se põem a soldo de interesses comerciais para questionar ou relativizar achados científicos (Madhouse Effect traça a origem dessa "profissão" na indústria do tabaco), apontam para o que consideram um terror paranoico de regulamentação governamental nascido nos tempos da Guerra Fria, denunciam jornalistas e profissionais de relações públicas envolvidos no assassinato de reputações e, como não poderia deixar de ser, citam a frase de Upton Sinclair sobre a relação inversa entre entendimento e remuneração.

Mann e Toles definem uma espécie de "escalada do negacionismo", em que cada argumento nega o anterior. Numa tradução parafraseada,  esses estágios seriam: (1) o aquecimento não existe; (2) existe, mas é natural; (3) não é natural, mas é irrisório; (4) não é irrisório, mas é benéfico; (5) não é benéfico, mas tentar consertar sairá mais caro; (6) a tecnologia vai nos salvar.

Ao apontar o caráter inconsistente da escalada -- e notar que, em debates, vários negacionistas  transitam de um degrau para o outro sem pudor -- os autores, de certa forma, antecipam a constatação apresentada num artigo recente, publicado no periódico SyntheseThe ‘Alice in Wonderland’ mechanics of the rejection of (climate) science: simulating coherence by conspiracism ("A mecânica 'Alice no País das Maravilhas' da rejeição à ciência (climática): simulando coerência por conspiracionsimo"), de que a negação da mudança climática antropogênica depende de um corpo de alegações que é internamente inconsistente.

Os autores do trabalho em Synthese apontam que os argumentos supostamente científicos contra a mudança climática carecem de coesão: por exemplo, dizem que o CO2 é necessário para impedir uma nova era glacial e, depois, que o CO2 e a temperatura da Terra não estão relacionados; ou que não existem medidas históricas confiáveis dos níveis de CO2, e que o registro histórico mostra que a temperatura sobe antes da concentração de CO2. Que o aquecimento global não existe e que houve uma pausa no aquecimento global. A menção a "Alice" vem da frase da Rainha Branca em Através do Espelho, "Acredito em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã".

Uma das ilustrações de Tom Toles para o livro
Por sua vez, The Alice in Wonderland mecahnics faz referência a um trabalho publicado em 2102 em Social Psychological and Personality Science (SPPS), com o título sugestivo de Dead and Alive: Beliefs in Contradictory Conspiracy Theories ("Morto e Vivo: Crenças em Teorias de Conspiração Contraditórias"), que constatou uma forte correlação de crenças contraditórias entre pessoas que aderem a teorias da conspiração -- por exemplo, pessoas que consideram altamente provável que a Princesa Diana tenha sido assassinada também consideram altamente provável que ela tenha forjado a própria morte e ainda esteja viva.

Os autores do trabalho na SPPS concluem que adesão a uma meta-narrativa -- no caso, a de que a "história oficial" da morte de Diana é falsa -- solapa a inconsistência das narrativas individuais. Conspiracionistas "tiram sua coerência de crenças centrais, como a convicção de que as autoridades participam de maciços esquemas para enganar o público (...) A conectividade com essa ideia central fornece apoio a qualquer teoria individual", afirma o artigo.

Voltando ao tema da mudança climática, dá para dizer que as estratégias individuais de negação, mesmo contradizendo-se, têm conectividade com a ideia central de que nada pode ou deve ser feito para conter as emissões de CO2, o que as torna coerentes o bastante para libertários paranoicos,  políticos em campanha, administradores públicos amestrados por lobistas, cientistas mercenários -- e gente acometida pela síndrome de Upton Sinclair.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Digital num fio de cabelo


Fãs de livros, filmes e seriados policiais sabem que é impossível identificar um suspeito pelos fios de cabelo achados na cena do crime, a menos que eles tenham sido arrancados com a raiz, pois é nela que se encontra o DNA. Mas isso poderá mudar em breve: trabalho publicado no periódico PLoS ONE apresenta uma tecnologia que tem o potencial de inferir características únicas do DNA do suspeito a partir das proteínas que constituem o fio.

As técnicas de “impressão digital” genética se valem da identificação de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs, ou “snips”, como são chamados em inglês), variações pontuais na sequência de bases que forma a molécula de DNA.



Os autores do novo trabalho, baseados nos Estados Unidos e no Reino Unido, notam que alguns SNPs, chamados SNPs não-sinônimos (nsSNPs) podem se traduzir em variações na composição de proteínas, incluindo as que vão formar o fio de cabelo. Essas variações, os polimorfismos de aminoácido único (SAPs), estão na base da nova técnica.

Para testar a abordagem, os autores usaram espectrometria de massa a fim de caracterizar as proteínas dos fios de cabelo de 66 pessoas de ascendência europeia. Essa abordagem permitiu identificar corretamente 596 SNPs. O estudo alega que a técnica tem um poder de discriminação capaz de identificar um indivíduo em um grupo de 12,5 mil.

“Passos adicionais precisam ser dados para que o método possa ser aplicado num contexto forense, além do bioarqueológico”, advertem os autores. “É preciso aumentar a sensibilidade ao ponto em que informação discriminatória suficiente possa ser obtida de um único fio de cabelo, ou da fração de um único fio, para justificar o consumo de amostras valiosas ou legalmente relevantes” no processo. Esta nota faz parte da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mais transparência na ciência

A Associação Estatística dos Estados Unidos decidiu passar a exigir que todos os artigos submetidos à seção de Aplicações e Estudos de Caso de seu periódico Journal of the American Statistical Association (JASA) venham acompanhados do código de computador e dos dados utilizados no trabalho. Código e dados, diz nota divulgada pela associação, representam “um padrão mínimo de reprodutibilidade em pesquisa científica estatística”. O processo de revisão pelos pares do JASA passará a incluir a figura do editor associado de reprodutibilidade, “para garantir que atinjamos um padrão de reprodutibilidade”.

A revista Nature entrevistou Victoria Stodden, que será uma das editoras de reprodutibilidade do JASA. Ela ponderou que os padrões tradicionais de revisão da pesquisa científica foram estabelecidos para estudos que não envolvem computadores. “Uma vez que você introduz o computador, a seção de materiais de um artigo científico típico não chega nem perto de fornecer a informação necessária para verificar os resultados”, criticou.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Florais de Fátima

Imagino que todo mundo que frequenta pet-shops ou farmácias de manipulação já deu de cara com catálogos de florais -- "remédios" para condições emocionais e psicológicas, de seres humanos ou animais, baseados em flores, água e álcool. Já havia pensado em escrever sobre o assunto antes, mas como os florais representam uma espécie de dissidência da homeopatia, e como já tratei desse tema várias vezes (a mais completa sendo esta aqui), achei que o serviço já estava feito.

Mas, enfim, ledo e ivo engano, como se diz por aí. Almoço cedo. No quilão aqui perto, onde costumo ir, sempre tem uma TV ligada. Na Globo. Então, de modo quase inevitável, almoço com Fátima Bernardes -- e eis que, na segunda-feira, assisti a sete inacreditáveis minutos de promoção acrítica, basbaque e irresponsável de algo chamado "florais brasileiros". Sei que também já gastei muito teclado tratando do modo subserviente, imprudente e leviano com que a grande mídia encara temas "esotéricos" ou embarca em falsas "controvérsias" (exemplos recentes aqui e aqui), mas esse parece ser o tipo de situação em que o excesso nunca vira redundância. Então, vamos lá. Florais.

Como escrevi acima, trata-se de uma dissidência, ou ramificação, relativamente recente, da homeopatia. O inventor da ideia, um médico homeopata inglês chamado Edward Bach (1886-1936) publicou, em 1933, o livro The Twelve Healers, que ensina como extrair "essências" de flores, a partir da diluição da matéria vegetal em água, ou pela radiação solar -- segundo ele, a luz do sol, passando através da flor, "depositava" as supostas propriedades curativas da planta nas gotas de orvalho, por exemplo. Essa água, após o processo de diluição ou de iluminação, é aí misturada com álcool de uva. O floral é, basicamente, um conhaquinho diluído.

Hoje em dia, os florais são usados quase que só para tratar de aflições emocionais -- medo, ansiedade, angústia, e coisas altamente específicas como "a incapacidade de seguir a própria intuição". Mas essa é uma postura revisionista. O Dr. Bach teorizava que todas as doenças são causadas por desequilíbrios emocionais, logo os florais eram capazes de curar, bem, tudo, de câncer a unha encravada. Olha só o primeiro parágrafo de seu livro:



Tradução: "Desde tempos imemoriais, sabe-se que Meios Providenciais puseram na Natureza a prevenção e a cura da doença, por meio de ervas, plantas e árvores divinamente enriquecidas. Os remédios da Natureza dados neste livro provaram-se abençoados, acima de todos os outros, em seu trabalho de misericórdia; e provaram que lhes foi dado o poder de curar todos nos tipos de doença e sofrimento".

A linguagem, com seus apelos à "Natureza", aos "Meios Providenciais" e a coisas "divinamente  enriquecidas", soaria melhor num tratado medieval do que num livro de medicina dos anos 30. E o modo como os remédios do livro "provaram-se abençoados" não é descrito em parte alguma. Eles funcionam porque o Dr. Bach, que é um cara legal e escreve em prosa poética melosa, diz que funcionam. Ponto.

Seguidores de Bach tentam racionalizar o fato de que ele morreu de câncer quando ainda relativamente jovem, aos 50 anos -- algo inesperado, para dizer o mínimo, em alguém que tinha descoberto a cura de tudo -- dizendo que ele não morreu da doença, e sim de "exaustão".  Mas não havia floral para exaustão?

Em termos científicos: existem estudos controlados sobre a eficácia dos florais de Bach. Uma revisão sistemática conduzida em 2010 concluiu que a coisa toda não passa de placebo. Isso se encaixa perfeitamente no tipo de indicação dada, hoje em dia, para esses medicamentos. É difícil imaginar algo mais sensível ao efeito placebo do que "tortura mental por trás de um rosto alegre" ou "dificuldade em dizer não". Para alguma coisa o conhaquinho há de servir.

 E quanto aos "florais brasileiros" que tanto encantaram a apresentadora global? Uma convidada disse que a flor de hortelã "abre o cardíaco da gente" -- o que me fez pensar em desobstrução de artérias -- mas logo em seguida ela explicou o que queria dizer com isso: "facilita a expressão dos sentimentos". Já a alfazema  ajuda no "discernimento da realidade". Bom saber.

A reportagem da Globo então foi visitar o produtor dos florais, que explicou como usa alquimia (!!) para decidir qual flor é melhor para o quê. Ele também disse que usa ouro e prata em seus preparados, e fiquei preocupado com uma eventual epidemia de argiria entre o público de Fátima Bernardes, mas então me lembrei de que as diluições são homeopáticas: o produtor disse que os materiais são tratados até se tornarem "uma coisa só com a molécula de água". Ele também declarou que produz "348 remédios". Não sei o que a Anvisa acha disso.

Há duas questões aí, claro: a exploração comercial de placebos, sendo chamados de "remédios" e com a promessa clara de benefícios para a saúde, sem que as autoridades sanitárias tomem o menor conhecimento; e, em segundo lugar, a promoção disso por um veículo de comunicação de massa.

Quanto ao primeiro ponto, por mais que coisas como "incapacidade de dizer não" ou "dificuldade de expressar os sentimentos" possam ser vistos como queixas imaginárias de gente hipocondríaca que pode muito bem se beneficiar de umas três gotas de conhaque genérico na ponta da língua, a verdade é que há várias das condições imaginárias, supostamente cobertas pelos florais, que se sobrepõem a condições reais que podem requerer tratamento psiquiátrico sério.

Se podemos ser otimistas e supor que ninguém vai tomar floral de hortelã em caso de enfarte, ou de boldo (para "sentimentos duros e pesados") contra o câncer, talvez não seja exagero temer que haja pessoas tentando controlar depressão clínica, talvez lutando pela própria vida, sem nada além de água de flores e álcool de uva.

Quanto ao segundo, fica difícil discernir entre despreparo e oportunismo. A desculpa de que se trata de entretenimento, e não jornalismo, não cola, simplesmente porque nenhum esforço foi feito, logo de início, para estabelecer a distinção. Além disso, o programa de Fátima Bernardes tem uma espécie de consultor médico de estimação que, curiosamente, não apareceu no quadro dos florais. Se por coincidência ou por rejeição tácita ao tema é difícil dizer. Mas, no segundo caso, fica claro que a opção de transformar o programa num infomercial de curandeirismo esotérico foi cínica e consciente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Extinção nos mares, versão raça humana


A atual crise de biodiversidade nos oceanos, causada principalmente pela ação humana, é diferente das demais extinções em massa registradas nos últimos 60 milhões de anos: desta vez, as espécies com indivíduos de grande porte estão mais ameaçadas que as espécies de indivíduos pequenos, o que acentua o impacto potencial das extinções nos ecossistemas. Os resultados constam de artigo publicado na revista Science.

Os autores do trabalho, vinculados a instituições dos Estados Unidos, atribuem esse diferencial à preferência humana pela caça e pesca de grandes animais. “A ameaça seletiva aos animais marinhos de grande porte traz um perigo aos ecossistemas que é desproporcional à porcentagem de espécies ameaçadas”, diz o artigo. “Animais de grande porte são essenciais para o funcionamento do ecossistema, por causa de sua posição preferencial no topo das redes alimentares”.

Os autores fazem a ressalva de que, caso a mudança climática venha a superar a caça e pesca predatória como principal fator de extinção marinha, o perfil de desparecimento de espécies poderá convergir para o visto em catástrofes do passado, quando a extinção não era seletiva quanto ao tamanho do indivíduo, ou atingia mais as espécies de pequeno porte. Esta nota faz parte da coluna TELESCÓPIO do Jornal da Unicamp.