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Trevas no coração do jornalismo "de bem-estar"

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Sempre tive um certo pé atrás com o modo, digamos, "canônico" de se fazer jornalismo de saúde na grande imprensa brasileira. Há uma fórmula: parte-se de uma condição (uma doença -- digamos, câncer de pulmão), de um tratamento e/ou mecanismo preventivo (digamos, uma nova técnica cirúrgica, talvez uma vacina recém-lançada) ou de uma conduta (pode ser fumar, deixar de fumar, vacinar-se, não vacinar-se).

A partir daí, buscam-se os chamados "personagens", que são pessoas que sofrem da condição/submeteram-se ao tratamento/têm ou não têm a conduta. Até algum tempo atrás, matéria de saúde em jornalão, sem personagem, era algo quase tão herético quanto matéria de economia sem o Maílson da Nóbrega. E isso porque o Maílson deu uma sumida, mas os personagens, não.

Se o núcleo de personagens envolver uma família (a combinação de criancinha fofa doente com mamãe guerreira, cheia de esperança, mas com lágrima -- quase imperceptível -- no canto do olho é especialmente matadora), …

Inteligência, adaptação: quando o que é demais atrapalha

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Dois estudos publicados neste ano -- um no início do semestre, outro nesta semana -- indicam que há contextos em que realmente é possível ser "bom demais para o próprio bem". Um deles trata da relação entre liderança de equipes de trabalho e inteligência e o outro, com adaptação ao ambiente e evolução das espécies. Ambos são destaque na minha newsletter nesta semana (detalhes abaixo).

O primeiro, realizado na Europa e publicado no periódico Journal of Applied Psychology sugere que inteligência muito alta, tal como medida em bons testes de QI, pode atrapalhar o exercício da liderança. O levantamento, que comparou características de personalidade e inteligência de mais de 300 administradores de nível hierárquico médio com suas qualidades para o papel de liderança, auferidas em questionários preenchidos por colegas de trabalho e subordinados.

Os autores encontraram uma relação de "U" invertido: quanto maior a inteligência, melhor a performance do líder era avaliada -…

Aventuras na Não-História

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Avram Davidson foi um dos grandes escritores americanos do século passado, e é uma pena que seja tão pouco lembrado hoje em dia. Além de ter produzido obras maravilhosas de ficção científica, mistério e fantasia (sua série de contos Adventures of Doctor Eszterhazy, sobre uma Era Vitoriana alternativa onde as superstições e pseudociências da época realmente "funcionavam", é uma série da Netflix ou HBO esperando para acontecer), ele também produziu algumas peças tão divertidas quanto eruditas de não-ficção, reunidas no volume Adventures in Uhhistory.

Neste livro, Davidson especula sobre as origens de algumas lendas que, durante certo tempo, foram consideradas por certas pessoas (ou por povos inteiros) fatos históricos -- como o Preste João, por exemplo, um suposto rei cristão que existiria no Oriente, durante a  Idade Média.

O tipo de "não-história" coberto em Adventures é, ao menos sob o ponto de vista atual, fundamentalmente benigno, mas há modalidades bem menos i…

Medindo o poder da mídia com ciência

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A exposição de um assunto na mídia, mesmo que apenas através de veículos de pequeno ou médio porte, é capaz de modificar a opinião pública -- e se não chega a mudar as opiniões individuais dos membros do público, ao menos afeta o tom e o conteúdo da " grande conversação" da sociedade. Esse fenômeno, que até agora só havia sido captado indiretamente, foi quantificado num estudo ambicioso publicado na revista Science desta semana.

Os autores, da Universidade Harvard e do MIT, inspirados nos protocolos usados para testar tratamentos médicos, desenvolveram um método para aplicar a "droga" de sua escolha (no caso, conteúdos jornalísticos específicos), de forma controlada e randomizada, à "população de tratamento" -- no caso, o público dos Estados Unidos.

Os autores firmaram parceria com mais de 40 veículos de pequeno ou médio porte, que concordaram em produzir conteúdo a partir de um cardápio de 11 questões de política pública -- raça, imigração, emprego, abo…

Lições de um fosfofracasso

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As autoridades sanitárias do Estado de São Paulo finalmente apresentaram ao público -- ainda que de forma limitada -- os resultados do teste, patrocinado por essa unidade da Federação, da chamada "fosfoetanolamina sintética" em pacientes de câncer. O desfecho foi considerado "desanimador", e com razão: de mais de 70 pacientes envolvidos, apenas um mostrou sinais de progresso.

Aqui, é importante notar que o estudo paulista foi feito sem grupo de controle, o que significa, em termos práticos, que qualquer sensação de melhora produzida -- por pura sorte, por uma mudança no ajuste do ar condicionado, por efeito placebo -- poderia acabar sendo atribuída, pelos groupies do criador da "fosfo", à substância. E nem com essa ajuda o produto conseguiu algo de chamativo para mostrar.

Muita gente se aferra à crença na "fosfo" por conta dos depoimentos das pessoas que acreditam ter sido beneficiadas pela cápsula. Uma das lições mais duras da história da Medic…

Diversidade na pesquisa médica

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Estudo divulgado nesta segunda-feira, 6, pelo periódico Nature Human Behaviour aponta que a presença de mulheres num grupo de pesquisa médica aumenta a probabilidade de o estudo conduzido incluir análises específicas sobre sexo e/ou gênero.

"Estudos médicos que incluem mulheres, especialmente em posições de liderança, têm muito maior chance de discutir possíveis diferenças sexuais e de gênero no risco de doenças, prevenção e tratamento", diz a nota à imprensa divulgada pelo Grupo Nature sobre o trabalho, conduzido por pesquisadores de Stanford, nos Estados Unidos, e da Dinamarca.

"Usando uma amostra de mais de 1,5 milhão de artigos de pesquisa médica, nosso estudo examinou a ligação potencial entre a participação de mulheres na ciência médica e a atenção a fatores relacionados a sexo e gênero em pesquisas específicas sobre doenças", escrevem os autores.

"Mulheres são 40% dos primeiros autores em estudos que não incluem análise de sexo e gênero (ASG), e 49% no…

Raios cósmicos e a Grande Pirâmide

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"Os egípcios não eram um povo de mentalidade esotérica", escreve o antropólogo e arqueólogo Paul Jordan em sua contribuição para o livro Archaeological Fantasies. "Mesmo os rituais de Osíris eram bem menos esotéricos que os mistérios de Elêusis dos gregos (...) O Livro dos Mortos pode ser obscuro e fantástico, mas não é uma composição esotérica". A ideia do Egito Antigo como uma terra de mistérios e segredos esotéricos escondidos por trás de uma mitologia alegórica, a ser interpretada por iniciados, é uma invenção tardia, surgida no período posterior à conquista do país por Alexandre Magno e amplificada na Europa da Renascença e, depois, na Era Vitoriana.

Por conta disso, é uma grata surpresa encontrar, na literatura científica, um verdadeiro mistério egípcio -- e envolvendo não só uma das pirâmides como, também, raios cósmicos!

Vamos lá: três experimentos envolvendo detectores de múons -- partículas criadas pela colisão de raios cósmicos com a atmosfera, e que vi…