quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O ufólogo da Casa Branca

Enquanto no Brasil um deputado busca regulamentar a "profissão" de ufólogo, a fim de abrir caminho para o financiamento público de pesquisas sobre o tema, nos Estado Unidos a candidata à Presidência Hillary Clinton não só promete liberar "todos os documentos" sobre óvnis, caso eleita, como tem, como chefe de campanha, John Podesta, um ufólogo "obsessivo", segundo este perfil publicado pelo Washington Post. Podesta, que ocupou posições importantes no gabinete do presidente Bill Clinton nos anos 90 e foi conselheiro de Barack Obama, era conhecido por "pegar o telefone e ligar para a Força Aérea perguntando o que acontece na Área 51".

Escrevendo para a revista Skeptical Inquirer, Robert Sheaffer nota que Podesta tem uim interesse especial no chamado "caso Kekcsburg", um evento ocorrido em 1965 e que alguns documentários de TV de má reputação tentaram transformar num "segundo Roswell". Sheaffer explica que o "evento" coincide exatamente com a data, hora, local e trajetória da queda de um conhecido meteorito, mas há quem não ache essa congruência convincente ou sugestiva o bastante.

Ele lembra ainda que, perguntada por um repórter do jornal Conway Daily Sun sobre seus pensamentos a respeito de óvnis, Hillary Clinton respondeu: "Talvez já tenhamos sido visitados. Não sabemos com certeza". O que é uma respostam bem política.

Aparentemente, o impacto das crenças exóticas de Podesta sobre as políticas do governo americano não vai muito além de testar a paciência dos chefes militares ou de criar oportunidades para a CIA fazer um pouco de marketing, o que é bem inofensivo, se comparado ao casos em que as crenças exóticas do campo republicando -- que vão do criacionismo à negação do aquecimento global -- podem causar.

Falando na relação entre crenças (pseudo)científicas e políticas públicas, a edição mais recente da mesma Skeptical Inquirer traz um artigo do professor de Comunicação Matthew Nisbet sobre o que ele chama de "Paradoxo da Alfabetização Científica": basicamente, o fato de que pesquisas mostram que o nível de "alfabetização científica" de uma pessoa -- o quanto ela sabe sobre o conteúdo das ciências, como Biologia, Astronomia, etc. -- tem uma correlação baixa com as crenças sobre ciência que essa pessoa vai defender num debate sobre políticas públicas.

Em outras palavras, não é que os criacionistas (por exemplo) necessariamente ignoram a teoria da evolução: muitos deles não acreditam nela, mesmo conhecendo-a; e os que são cientificamente sofisticados usam sua sofisticação para criar argumentos em favor de suas crenças. O mesmo se aplica a outras questões contenciosas do ponto de vista político, como o aquecimento global ou o papel dos genes na formação da personalidade, ou as diferenças inatas (não culturais) entre os sexos.

Nisbet sugere que uma forma de contornar esse problema seria separar, ao menos para efeito de debate, a ciência da política. Se a psicologia sugere que há pessoas tão identificadas com determinado quadro ideológico que, diante de uma proposição do tipo "Se X é verdade, então a política Y, que contraria minha ideologia, deve ser implementada", preferem inventar razões para negar X, a despeito de toda a evidência, a aceitar Y, talvez o melhor seja, num primeiro momento, separar X de Y.

É uma proposta simpática, ainda mais quando nos damos conta de que muitos dos saltos de X para Y que vemos no dia-a-dia são um tanto quanto arbitrários, mas também limitada: afinal, há vezes em que Y decorre, sim, necessariamente, de X. E aí?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rito satânico no CERN! (ironia, gente, ironia)

As pessoas andam tão entusiasmadas com as cerimônias dos Jogos Olímpicos que esta aqui passou batida: uma cerimônia satanista, em torno de um ídolo do Shiva, deus hindu da destruição, com sacrifício humano e tudo, realizada no CERN, o centro internacional de pesquisas científicas responsável pelo LHC, equipamento que permitiu a descoberta do bóson de Higgs. Como mostra o vídeo abaixo:



A coisa toda, é claro, não passou de uma piada. Existe muita conversa fiada por aí sobre o LHC ser uma espécie de "máquina do juízo final" -- a ideia difusa de que as colisões de partículas que acontecem ali poderiam abrir um buraco negro ou desestabilizar o espaço-tempo -- e é perfeitamente compreensível que alguns cientistas percam a paciência com essa bobagem toda e resolvam brincar com o assunto. Até mesmo os filmes da série "Código Da Vinci" já associaram o LHC ao fim do mundo, por exemplo.

Em comunicado à agência de notícias AFP, a direção do CERN reconhece que a "cerimônia" foi encenada, por pessoas com crachás válidos de segurança, no campus da organização em Genebra. Diz ainda que "o vídeo da brincadeira foi gravado sem permissão (...) o CERN não aprova esse tipo de sátira, que pode levar a mal-entendidos sobre a natureza científica do nosso trabalho (...) o CERN recebe a cada ano milhares de cientistas do todo o mundo, e às vezes alguns deles se deixam levar longe demais pelo senso de humor".

A questão dos "mal-entendidos", anotada no comunicado, é sublinhada pela geóloga e divulgadora de ciência Sharon Hill, em seu blog."Algumas pessoas estão rindo da sátira, enquanto que outras veem nela a confirmação de suas suspeitas sinistras", escreve ela.

Hill prossegue: "Como uma divulgadora da ciência que sabe como as pessoas acatam prontamente ideias ridículas a respeito do funcionamento do mundo, estou irritada com esses participantes que certamente são IGNORANTES do dano que podem causar à pobre reputação da 'big science'". "Big science" é um termo usado em referência a projetos científicos extremamente caros, bancados por órgãos estatais.

Do ponto de vista prático, tendo a concordar com ela: parte significativa da chamada "franja paranoica" da internet já abraçou o vídeo como evidência de que o LHC é um portal para a Dimensão Negra ou algo assim (talvez o "down below" da série Stranger Things?).

De um ponto de vista mais abstrato, no entanto, é meio enfadonho esse negócio de as pessoas terem de praticar autocensura  por conta do efeito inadvertido que se pode produzir sobre os idiotas do mundo, e desesperador imaginar que o ouvido coletivo da humanidade esteja ficando assim tão surdo para a sátira e a ironia.

Millôr Fernandes costumava criticar os jornais que marcavam suas seções de piadas e quadrinhos com o título "Humor": ele ponderava que o conteúdo ou era engraçado ou não era, o leitor ia rir ou não ia, e portanto não fazia sentido pôr uma plaquinha de aviso. Ao que parece, o homem era um otimista.

sábado, 20 de agosto de 2016

Happy Lovecraft Day!

Howard Phillips (H.P.) Lovecraft foi um desbravador: chegando à terra incógnita localizada na encruzilhada da fantasia com a ficção científica e o terror, transformou-a, de um deserto pontilhado por alguns notáveis oásis – o assombrado Frankenstein de Shelley, o amaldiçoado Moreau de Wells, o infeliz Valdemar de Poe – num continente fértil e luxuriante, que produz frutos em abundância até os dias de hoje seja no cinema na TV, nos quadrinhos, nos games e, para sempre, na literatura. Como o autor nasceu em 20 de agosto de 1890, a data acabou sendo marcada, por seus fãs e leitores, como "Lovecraft day".

Sua imaginação era a fornalha onde se fundiam as influências mais díspares, da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, com suas deformações do espaço-tempo e estranhas dimensões, à delirante teosofia de Helena Petrovna Blavatsky, com seus mitos de continentes perdidos e raças pré-humanas, passando pelas observações desconcertantes de Charles Fort, o jornalista que colecionava relatos de “anomalias” como chuvas de sangue e de óvnis antes do nascimento da ufologia.

Uma nota típica de Fort, extraída de seu “Livros dos Malditos”, relata como “uma novem triangular que apareceu numa tempestade, em 17 de dezembro de 1852; um núcleo vermelho com metade do diâmetro aparente da lua, e uma longa cauda; visível por 13 minutos; explosão do núcleo”.

Desses materiais, somados à leitura obsessiva das Mil e Uma Noites, das fantasias de Lord Dunsany, dos trabalhos de Edgar Allan Poe e dos clássicos do romance gótico, Lovecraft viria a forjar uma das obras mais originais da história da literatura universal, em que feitiços são, “na verdade”, fórmulas de uma ciência alienígena avançadíssima, em que deuses e demônios se revelam formas de vida de outros espaços e outras dimensões.

Adotando o ponto de vista do antigo historiador grego Evêmero, que buscava reinterpretar as fábulas mitológicas de deuses e heróis como versões distorcidas de histórias reais sobre seres humanos comuns, Lovecraft construiu um universo ficcional que consegue ser materialista, mecanicista, determinista, ateu – até mesmo blasfemo, já que mais de um crítico lê seu conto “The Dunwich Horror” como uma narrativa velada da Segunda Vinda de Cristo – e, ainda assim, cheio de espanto, mistério e horror. O verdadeiro terror lovecraftiano não trata de deuses e demônios disputando a alma humana, mas reside na constatação de que, para os seres que reverenciamos como deuses e demônios, a alma humana vale menos que nada.

Que Lovecraft tenha feito tudo isso é assombroso: sua vida foi curta e miserável. Os pais morreram, ambos, enlouquecidos, provavelmente de sífilis (adquirida pelo pais e transmitida à mãe). Em sua lenta desintegração mental, a mãe de Lovecraft submeteu-o a várias formas de abuso psicológico. O escritor passou boa parte de sua vida adulta em uma pobreza abjeta; por fim, um câncer intestinal o matou, após meses de dor, aos 47 anos de idade, sem atingir nenhum grande reconhecimento por sua obra.

A despeito disso tudo, sua vida talvez não tenha sido infeliz: a monumental correspondência que mantinha com amigos, fãs e outros escritores revela um homem generoso e atencioso, bem-humorado, capaz de rir de si mesmo e de dedicar genuína afeição a pessoas distantes que só conhecia pelo correio, um homem que apreciava longas caminhadas e tinha prazer genuíno em receber visitas.


Muito se falou, em tempos recentes, sobre o racismo de Lovecraft. Seus papéis particulares sugerem que o preconceito foi especialmente forte na juventude – anos 15 anos ele se orgulhava de ser o “maior antissemita” da escola, e aos 22 escreveu um par de poemas (nunca publicados) sórdidos, incluindo o infame “Sobre a Criação dos Negros”. Seu breve contato com a vida metropolitana em Nova York, mais tarde, estimulou uma veia xenófoba. Mas a única mulher com quem teve alguma intimidade foi uma judia, Sonia Greene, e quando o casamento finalmente acabou, foi de forma amigável.

O racismo do homem deixou sinais na obra, como seria inevitável, mas não é correto afirmar, como às vezes se faz, que a essência do horror lovecraftiano é a xenofobia, a aversão pelo outro. Não é: suas obras principais – os contos “O Chamado de Cthulhu” e “A Cor que Caiu do Céu”, as novelas “Sombras Perdidas no Tempo” e “Nas Montanhas da Loucura” – assombram pela escala cósmica, que põe em perspectiva a finitude humana. Em “Montanhas da Loucura” (escrita em 1931, quando Lovecraft já tinha mais de 40 anos), os alienígenas, nada antropomórficos, são finalmente reconhecidos “homens como nós”, tão insignificantes para o esquema geral do Universo – e tão valiosos para si mesmos – quanto nós.

Esse apelo cósmico teve uma influência profunda em meu trabalho como ficcionsita. Gosto de dizer que já era lovecraftiano "antes de virar modinha", tendo publicado meu primeiro livro -- um volume de contos inspirados no trabalho de Lovecraft e, também, no RPG "Call of Cthuhlu" -- há exatos vinte anos, em 1996. Traduzido para o inglês, um desses contos, "Noite de Samhain",  saiu no clássico fanzine americano "Crypt of Cthulhu".  E, como os leitopres deste blog já devem estar cansados de saber, neste ano tenho um original em inglês na antologia britânica "Swords v. Cthulhu".

Meu material original de 1996, mais um monte de outras coisas que andavam disponíveis apenas em sebos e bibliotecas, está reunido no volume Mistérios do Mal, que terá lançamento oficial na Bienal do Livro de São Paulo. Estarei lá para autografar no sábado, 3 de setembro. Apareçam!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pseudismo olímpico



Ao longo da última semana, parte da imprensa brasileira envolveu-se numa campanha para convencer o público nacional de que algo chamado "ventosaterapia" -- a aplicação de uma forte sucção sobre pontos específicos da pele, rompendo vasos capilares e causando hematomas -- seria o segredo por trás do desempenho espetacular do americano Michael Phelps nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Phelps é, claro, um fenômeno extarordinário na história do esporte; o único outro atleta tão bem-sucedido quanto ele em eventos olímpicos foi um corredor grego que competiu mais de dois mil anos atrás. A questão é: ventosas tiveram algo a ver com isso?

A curiosidade em torno do papel da "ventosaterapia" no sucesso de Phelps surgiu a partir de imagens do corpo do nadador exibindo os hematomas produzidos pela prática. Trata-se de uma curiosidade legítima, que foi explorada pela mídia do mundo todo. Nos Estados Unidos, órgãos de imprensa tidos como tradicionais e responsáveis, como a revista The Atlantic, reagiram com artigos como este, assinado pelo médico James Hamblin, pedindo a Phelps que pare de promover bobagens. No mundo das mídias alternativas, o blog Respectful Insolence, mantido pelo oncologista e professor universitário David Gorski, ironicamente agradeceu a Phelps por "glamurizar o charlatanismo".

Já no Brasil, a Folha de S. Paulo, que tanto gosta de dizer que faz "jornalismo crítico", mais uma vez deixou o tal "senso crítico" bem trancado lá no armário e engoliu gostosamente a história do poder das ventosas com isca, anzol, linha e chumbada, oferecendo a seus leitores até mesmo uma preleção sobre os efeitos da sucção sobre o "ki", a "energia vital" preconizada pela "medicina tradicional chinesa". Dois dias depois, o jornalão ofereceu a seus leitores uma espécie de semidesmentido envergonhado, e que ainda assim punha a "garantia" de que a técnica é útil, dada por médicos que narravam casos pontuais, em pé de igualdade com estudos clínicos apontando contrário. O UOL, do mesmo grupo, foi ainda mais longe na glamurização, vinculando diretamente as manchas deixadas pelo "tratamento" às vitórias de Phelps.

 Mas, afinal, qual o raciocínio por trás da ventosaterapia? Qual a lógica que liga uma sucção intensa da pele -- forte o suficiente para romper vasos sanguíneos -- à melhora na performance atlética, redução da dor e outros efeitos benéficos atribuídos à prática? A resposta curta é: nenhuma. Mas existem algumas tentativas de resposta longa. A mais comumente citada é a de que a sucção estimula a circulação do sangue.

O médico Hamblin, escrevendo para a Atlantic, expõe o absurdo por trás dessa hipótese, ao pontar que as manchas roxas deixadas pela sucção são hematomas: "hematoma é um coágulo sanguíneo e sangue coagulado, por definição, não está circulando".  

A segunda linha de argumentação mais usada em defesa das ventosas é a de que se trata de uma "prática milenar chinesa". Esse tipo de retórica me lembra o poema de Millôr Fernandes:

Tudo que eu digo, acreditem,
Teria mais solidez
Se, em vez de carioquinha,
Eu fosse um velho chinês


Em outras palavras, qualquer bobagem tem uma grande chance de ser levada a sério quando colamos nela um par de longos bigodes negros e a vestimos em seda colorida. No caso específico do uso de ventosas, no entanto, a alegação não é exatamente verdadeira: de acordo com o livro Truque ou Tratamento, a prática aparece ao longo dos séculos na história da medicina de diversas culturas; na Europa, por exemplo, era associada às sangrias. No caso específico chinês, "segue a mesma filosofia subjacente da acupuntura".

escrevi sobre acupuntura em outras oportunidades, mas resumindo: não há nada que a distinga de um placebo, e a história mostra que toda a mítica em torno da suposta eficácia preternatural da "medicina tradicional chinesa" nasceu de um golpe de marketing de Mao Zedong, que tentou transformar uma mistura de folclore e superstição em produto de exportação. Por exemplo, os tais "meridianos principais" por onde flui o "ki" são doze porque doze eram os rios que cortavam o Império Chinês: trata-se de uma analogia, típica do pensamento mágico, entre terra e povo. Pelo mesmo princípio, os brasileiros deveriam ter tantos meridianos quantos são os afluentes do São Francisco (ou talvez o "ki" dos paulistanos só flua por dois, Pinheiros e Tietê?).

 Truque ou Tratamento chama atenção para a possibilidade de os aspectos mais espetaculares da ventosaterapia, como a visão da pele sendo "magicamente" sugada para dentro das ventosas, desencadearem um efeito placebo "acima da média". 

Esse efeito pode ser útil para atletas de alta performance? Talvez. Quando todos os fatores objetivos -- da predisposição genética aos anos de treino duro -- já estão lançados no tabuleiro, talvez uma vantagem imaginária ofereça um mínimo extra de tranquilidade e confiança. Mas o fato de ser imaginária significa que ela poderia vir de qualquer outro lugar: uma massagem, uma palavra mágica, uma oração ou uma sunga favorita. Os hematomas de Phelps não são marcas de um tratamento de saúde bem-sucedido. São amuletos da sorte. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Complexo de Frankenstein, transumanismo e religião

"Complexo de Frankenstein" é uma expressão cunhada por Isaac Asimov para se referir ao medo instintivo que muitas pessoas têm de inovações tecnológicas, principalmente de inovações que parecem violar "prerrogativas divinas". Victor Frankenstein, claro, é o caso arquetípico, o homem que ousou criar vida. Mas o "complexo" já pode ser divisado muito antes, no mito de Prometeu e na narrativa da Torre de Babel.

Com o passar dos séculos e a ascensão das mídias de massa, acabou se tornando um dos clichês mais batidos da ficção científica: o castigo inevitável visitado naqueles que humanos que, tomados de arrogância intelectual, ignoram seu devido lugar na ordem da criação, reciclado à náusea em inúmeros filmes B e seriados de televisão.

 E o complexo vai muito bem, obrigado. Levantamentos recentes do Instituto de Pesquisa Pew não só mostram que a maior parte do público americano  está mais "preocupada" do que "entusiasmada" com as perspectivas de avanços biomédicos como implantes cerebrais para melhorar funções cognitivas (69% contra 34%), edição genética para eliminar doenças hereditárias em bebês (68% contra 49%) e  sangue sintético (63% contra 36%) como apontam que esse nível de preocupação, chegando à rejeição pura e simples, cresce com o nível de comprometimento religioso das pessoas.

Como a tabela ao lado mostra, a maioria das pessoas de alto comprometimento religioso mostra-se disposta a rejeitar o uso de manipulação genética até mesmo para reduzir os riscos de saúde dos próprios filhos. Algumas das tecnologias presumidas na pesquisa, como implantes cerebrais e sangue sintético, cruzam a fronteira do chamado "transumanismo", a ideia de que a tecnologia poderá levar a uma transcendência da condição humana. É um tema caro à ficção científica, e com o qual já trabalhei.

A pesquisa Pew detectou uma preocupação (apontada por 73% dos respondentes) com o risco de que tecnologias de "ampliação" ou "aperfeiçoamento" da performance humana venham a agravar desigualdades sociais, mas temores mitológicos também têm um papel importante. Cerca de 30% dos oponentes do uso de edição genética para reduzir o risco de doenças futuras em bebês saudáveis citaram como motivo uma interferência indevida no "plano de Deus":



A tabela acima mostra uma série de razões para rejeitar a edição genética humana que parece saída de uma produção especialmente ruim de Roger Corman; "Nada de bom pode vir de mexer com a natureza"; "não é natural"; "mexer com o DNA é cruzar a linha". Aparece ainda a falácia do declive escorregadio ("onde vamos parar?"), e também algumas objeções razoáveis -- por exemplo, a preocupação com o equilíbrio geral do genoma -- mas que, do ponto de vista lógico, apontam mais para a necessidade de mais pesquisa do que para uma rejeição absoluta da tecnologia em si.

Em linhas gerais, são objeções num espírito muito semelhante ao das elencadas, ao longo da história, contra vacinas, para-raios e, numa linguagem enganosamente "sofisticada", transgênicos: o de existe uma ordem divina (ou natural, dependendo da sua metafísica favorita) que não deve ser afrontada.

Uma coisa é opor-se a mudanças irresponsáveis ou claramente deletérias num statu quo que, ainda que imperfeito, ao menos é tolerável. Outra é presumir que qualquer mudança será necessariamente catastrófica, e que o statu quo já é o melhor dos mundos possíveis Ou, alternativamente, que a razão humana é incapaz ou insuficiente para melhorá-lo). É a essa segunda posição que me refiro quando falo em "temores mitológicos".

É tentador ver, nessa correlação entre religiosidade e rejeição a tecnologias "transumanas", uma confirmação da tão propalada correlação em religião e obscurantismo científico. Por exemplo, veja-se esta tabela:


Se essa rejeição de natureza religiosa configura "obscurantismo" ou não, no entanto, o fato é que ela tem impacto sobre políticas públicas de pesquisa. Edição recente da Science, por exemplo, traz uma peça de opinião lamentando os embaraços causados por uma provisão da legislação norte-americana que proíbe certos tipos de estudo envolvendo a edição genética de embriões humanos. Embora não haja prova concreta de que a intenção do Congresso americano em vetar, liminarmente, esse tipo de estudo seja inspirada por temores religiosos -- ou "mitológicos", como escrevi acima -- os resultados da pesquisa Pew são, para dizer o mínimo, sugestivos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Lendo o cérebro

Grupo de pesquisa da Unicamp desenvolve tecnologia que permite associar a captura de dados do eletroencefalograma (EEG) ao monitoramento, em tempo real, do fluxo sanguíneo no córtex cerebral. As tecnologias mais usadas até hoje para estudar a atividade cerebral, como a ressonância magnética funcional (fMRI) ou a tomografia por emissão de pósitrons (PET), na verdade não medem diretamente a ação do cérebro: em vez disso, registram o consumo de oxigênio ou o fluxo de sangue para cada área do órgão, partindo do princípio de que, quando usamos mais intensamente uma parte do cérebro – por exemplo, a região ligada à linguagem – a demanda local por energia aumenta, e é atendida por uma dilatação dos vasos próximos e aumento do fluxo sanguíneo. Esse efeito é conhecido como acoplamento neurovascular.

“O acoplamento pode parecer óbvio hoje em dia, mas só foi inicialmente descrito no final do século 19”, explica o pesquisador Rickson Mesquita, do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp. “É algo que tem uma importância muito grande, porque hoje as principais técnicas usadas para estudar o cérebro são baseadas na resposta vascular à atividade. Que essa resposta existe, hoje é óbvio. Como ela é, é uma questão extremamente complexa”.

O grupo de Mesquita conseguiu juntar o EEG à Espectrometria Óptica de Difusão (DOS), técnica que usa fibras ópticas para injetar luz sob o escalpo e, a partir da aplicação de modelos matemáticos ao comportamento da luz que é refletida de volta, deduz o fluxo sanguíneo. “Como consequência direta desse trabalho, já começamos a mostrar que o acoplamento neurovascular é altamente não linear”, disse o pesquisador. “A gente vê que, quando há respostas integradas, o cérebro parece ser mais eficiente do que seria previsto só a partir da soma das respostas individuais. Começamos a perceber que a resposta é altamente não linear, mas é algo que estamos caracterizando agora". Leia a entrevista completa no Jornal da Unicamp.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Teoria do orgasmo feminino

A existência do orgasmo feminino na espécie humana tende a ser vista como um mistério, do ponto de vista biológico: enquanto o masculino está diretamente ligado à emissão dos espermatozoides, que têm papel fundamental na reprodução da espécie, o feminino parece desconectado de qualquer tipo de função reprodutiva, já que a liberação dos óvulos pelas mulheres segue um ciclo mensal, e não está ligada ao momento do intercurso. Além disso, o orgasmo feminino sequer é uma experiência universal: em pesquisas, poucas mulheres dizem experimentá-lo toda vez que fazem sexo.

Entre as hipóteses propostas até hoje há a de que a experiência ajuda as mulheres a selecionar parceiros geneticamente saudáveis, mas mesmo essa explicação falhou em convencer muitos cientistas. Agora, artigo publicado no periódico Journal of Experimental Zoology propõe investigar a função do orgasmo feminino humano a partir da reprodução de outras espécies de mamíferos.

O trabalho, encabeçado pela pesquisadora Mihaela Pavlicev, sugere que, entre as fêmeas dos primeiros mamíferos a evoluir, a ovulação era desencadeada pelo ato sexual, da mesma forma que a ejaculação masculina ainda é. “O orgasmo feminino humano está associado a uma onda hormonal similar às ondas (...) em espécies com ovulação induzida”, diz o artigo. “Sugerimos que o homólogo do orgasmo humano é o reflexo que, ancestralmente, induzia ovulação. Esse reflexo tornou-se supérfluo com a evolução da ovulação espontânea, potencialmente liberando o orgasmo feminino para outros papéis”. (Leia mais notas sobre descobertas científicas no Telescópio do Jornal da Unicamp)