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O rebote do efeito rebote

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As controvérsias públicas em torno de questões científicas que não são mais controversas entre cientistas -- como vacinação, aquecimento global, evolução -- acabaram gerando uma questão de pesquisa dentro da psicologia e das ciências sociais: por quê? Por que a população em geral parece feliz em acatar a chamada "ciência estabelecida", definida como o consenso presente dos especialistas, em inúmeras questões, mas às vezes opta por ignorá-la, agir contra ela, negá-la violentamente, fingir que ela não existe?

Não há, aparentemente, uma resposta única. A explicação default é a chamada "teoria do déficit": as pessoas negam a ciência estabelecida porque não tiveram acesso a ela, não sabem o que ela diz. A teoria do déficit muitas vezes é atacada a partir de um ponto de vista que defende um certo relativismo epistemológico: seria, digamos, politicamente incorreto insinuar (ou afirmar) que o povo é ignorante.

O problema com essa crítica é que ela veta, in limine, a possi…

O detox do detox

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Estamos na chamada "silly season", a "temporada tonta", em que a mídia, por falta de gente (muitos jornalistas de férias), de assunto (recesso parlamentar, pré-temporada esportiva) e atenção (leitores/espectadores na praia) começa a gastar páginas inteiras com bobagens, fazendo hora até o ano começar de verdade. É nesta época que afloram com maior intensidade as longas entrevistas com subcelebridades e videntes, as retrospectivas, os avistamentos de óvni e, claro, as chamadas "dietas detox".

Não há nada errado em achar que tomar um copo de couve batida com espinafre e óleo de peixe vai aliviar a angústia existencial deixada pela comilança das últimas duas semanas, mas se você acredita que, além da purificação espiritual trazida pela penitência, esse procedimento vai causar alguma purificação física, removendo toxinas de seu corpo... sinto muito, mas não. Mesmo.

O corpo humano é, no geral, bem capaz de desintoxicar-se sozinho: os rins e o fígado fazem o g…

Baritsu!

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E eis que, na véspera de Natal, os Correios saem de sua notória letargia e me entregam o número 11 do volume 5 de The Watsonian: The Journal of the John H. Watson Society, edição de novembro de 2017, que traz meu paper "The Truth About Baritsu". A John Watson H. Society, como o nome sugere, é uma organização dedicada ao estudo da vida e obra de John H. Watson, médico, soldado, escritor e biógrafo de Sherlock Holmes.

Meu artigo investiga a natureza do "baritsu", a arte marcial que permitiu que Holmes lançasse o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach e escapasse com a vida. A maioria das autoridades -- incluindo Baring-Gould, Leslie Klinger e o editor da edição crítica de The Return of Sherlock Holmes publicada pela Universidade de Oxford, Richard Lancelyn Green, concordam que "baritsu" é uma corruptela de "bartitsu", uma adaptação do jiu-jitsu criada por E. W, Barton-Wright em 1899.

Quanto ao óbvio anacronismo -- a luta entre Holmes e Mo…

Um ano estranho

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Semanas atrás, durante um jantar na casa de um amigo, perguntaram-me como tinha sido meu ano. A única palavra que me ocorreu em resposta foi: "estranho". Como esta é a época em que blogs e outros canais de interação online costumam fazer seus balanços e deixar votos para o novo ciclo solar que se inicia, resolvi entrar na onda e elaborar um pouco mais sobre essa estranheza de 2017.

O ano começou muito bem, com a confirmação de que a Ellery Queen Mystery Magazine iria comprar um conto meu -- o segundo vendido a eles, e o primeiro escrito originalmente em inglês (o primeiro saiu em 2014; o segundo não foi publicado ainda). Logo em seguida, a canadense Mystery Weekly Magazine também confirmou seu interesse numa história minha, e tive o vislumbre de uma carreira como escritor de contos policiais para o mercado internacional (que continua em formação: a Mystery Weekly comprou outra história, agora em novembro).

Mas depois desse influxo inicial de boas notícias logo me vi precisa…

O Pentágono e os discos voadores

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Deu no New York Times: durante cinco anos deste século, entre 2007 e 2012, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastou U$ 22 milhões de seu "black budget" -- o orçamento secreto usado para financiar coisas, bem, secretas -- com algo chamado Programa de Identificação de Ameaças Aeroespaciais Avançadas. Em linguagem normal, um departamento secreto de caça a discos voadores.

O dinheiro e o departamento apareceram graças a uma aliança de três senadores (dois democratas e um republicano) interessados em ufologia.  O principal artífice da ideia foi Robert Reid, do Partido Democrata de Nevada. Parece haver uma certa afinidade entre os democratas e a ufologia, amis ou menos como há entre republicanos e criacionismo: John Podesta, estrategista de campanha de Hillary Clinton, é um crente de teorias de conspiração envolvendo alienígenas.

O programa financiado por Reid não representa a primeira vez que militares americanos se interessam por óvnis, claro. De 1952 a 1969, o Projet…

Fim do ano, fim da newsletter

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Há alguns meses, comecei a produzir uma newsletter -- um e-mail semanal, enviado a assinantes --, chamada Em Órbita, com um resumo das principais descobertas científicas anunciadas nos grandes periódicos (Science, Nature, etc.) que haviam circulado na semana. Hoje, despachei a edição final.

Nos meses em que esteve no ar, a Em Órbita falhou em atrair um número de assinantes que viabilizasse sua continuidade. Foi um experimento interessante, mas que se revelou inviável, a despeito de meus esforços em promover a ideia. Com novos projetos em vista para o próximo ano, não considerei responsável manter o compromisso de seguir produzindo-a.

É provável que o botão com a opção de assinatura da newsletter continue a aparecer em postagens antigas do blog. Vou tentar eliminá-lo do máximo de publicações possível, mas isso deve tomar algum tempo (e talvez alguma página escape). Peço desculpas por qualquer transtorno que isso possa causar.

Agradeço a quem apoiou a Em Órbita até aqui.

"Dizem estudos": o caso do vinagre de maçã

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Outro dia fui ao mercado comprar vinagre de maçã -- por nenhuma outra razão além da de que é o tipo de vinagre que a Mais Paciente de Todas as Esposas gosta de usar na salada -- e fiquei surpreso ao ver que, em vez de estar engarrafado em plástico, ao lado dos vinagres de vinho tinto, vinho branco e álcool, o de maçã agora aparecia em garrafas de vidro, como as de vinagre balsâmico, e custava mais que os outros. Bem mais.

Voltei para casa resmungando contra essa onda insuportável de gourmetização do trivial e não pensei muito mais no assunto, até me deparar com esta postagem do blog de Edzard Ernst,  médico e pesquisador alemão radicado na Inglaterra e, possivelmente, o maior especialista em medicina alternativa do mundo (spoiler: ele concluiu que essas coisas não prestam). No blog, Ernst comenta que o vinagre de maçã vem sendo promovido como uma panaceia por certos veículos de mídia de "estilo de vida" e "bem-estar". A lista de supostos benefícios vai de aumentar…